
No dia 8 de Dezembro de 2017, Bruno Nogueira fez uma rubrica na rádio que era de teor extremamente ofensivo para Nossa Senhora. O povo insurgiu-se e eu escrevi um post sobre o assunto no meu antigo blog, que podem ler aqui.
O post chamava-se “Estou chateado com o Bruno Nogueira” mas nele explicava que o principal motivo de estar chateado era porque a rubrica era estupida, uma vez que ele confundia a Imaculada Conceição de Nossa Senhora com a Concepção Virginal de Jesus.
É que eu aceito que o humor pode ser ofensivo, mas tenho mais dificuldade com o humor que para além de ofender uns, deixa os outros mais ignorantes.
Agora o Bruno Nogueira volta à baila com um sketch de um padre lascivo a distribuir a comunhão numa igreja. Uma vez que o tema aqueceu, e há pessoas a pedir que se escreva em protesto para a RTP, vou partilhar alguns pensamentos sobre o assunto.
- Há limites para o humor? Isto é, há assuntos em que o humor não pode ou não deve tocar? Acho que não deve haver, e que quando se tenta impô-los é sempre pior a emenda que o soneto. A função do humor é precisamente ridicularizar as instituições e normas sociais. De vez em quando a Igreja vai ver-se na mira dessa ridicularização. Ao contrário do que muitos pensam, o facto de um humorista ridicularizar uma situação não significa que acha a situação ridícula. Pelo contrário, a humor está precisamente no contraste entre o sério e o ridículo, no facto de se pegar em algo sério, neste caso sagrado, e transformá-lo numa piada. Funciona assim com a rubrica do “Fui à guerra mas a guerra estava fechada” e funciona assim aqui.
- O sketch é ofensivo para os católicos? Sim, é. Na medida em que representa desrespeito pelo sacramento central da sua religião e procura e explora preconceitos sobre os sacerdotes, sim, é ofensivo. Mas é ofensivo tal como o sketch do “Menu piço” é ofensivo para os hipsters, o “Museu das Obras Canceladas” é ofensivo para os homossexuais e para as mulheres e o sketch sobre os limites do humor é ofensivo para os humoristas. Resumindo, existe humor “inocente”, sim, mas grande parte do humor é sempre ofensivo para alguém, na medida em que é uma caricatura de alguma dimensão da vida social. Há sempre um visado.
- Outra questão diferente é saber: o sketch é bom? Eu admito que gosto desta série de sketches do Bruno Nogueira. Acho que o humor dele se apurou e ficou mais inteligente com o passar dos anos e, por regra, não tenho problema em achar piada a anedotas ou sketches que possam ser ofensivos para aquilo que eu estimo. Mas também reparo que, por regra, os sketches que procuram gozar com o Cristianismo tendem a não ser inteligentes e a cair na piada fácil. Foi assim com a “Última Ceia” do Herman José, que tanta celeuma deu e que hoje em dia provavelmente não nos levaria a levantar o dedo mindinho em protesto; foi assim com o filme do Natal da Porta dos Fundos e acho que acontece o mesmo com este do Bruno Nogueira. Porque se parte da lógica do humor é chocar, então brincar com a religião é sempre meio caminho andado. Mas é um atalho fácil. Está para o humor adulto como o “Chichi! Cocó!” está para o humor das crianças. Daí que, a ser feito, tem de ser mesmo bom. Um crítico poderá dizer que eu só estou a dizer isto porque aqui um dos objectos de ridicularização é a eucaristia e eu simplesmente não consigo ultrapassar isso e achar piada. Admito que isso possa ser verdade.
- Pode o sketch ser um elogio? Vale a pena pensar nisto. Os humoristas pegam em questões sociais, mas sobretudo em questões sociais relevantes. O facto de a Igreja ser recorrentemente alvo de gozo por parte de humoristas é um reflexo da sua relevância. Isso significa que temos de aplaudir e gostar? Não. Mas vale a pena ser tido em conta.
- Como é que os católicos deviam reagir? Aqui vou limitar-me a fazer copy-paste do que escrevi sobre a outra rubrica de 2017: “Os católicos têm de perceber que os humoristas ganham dinheiro a fazer humor e que a forma mais simples e básica de fazer humor é à custa de outros. De vez em quando os católicos vão estar na mira dos humoristas, é a vida. Por vezes conseguiremos rir-nos de nós próprios, outras vezes ficaremos chocados com o que ouvimos e serão apenas os outros a rir, mas seja como for as campanhas organizadas de revolta, que têm sempre o efeito de aumentar as audiências e os cliques da dita ofensa, acabam por ser contraproducentes e passam uma imagem dos cristãos como gente histérica e sem sentido de humor.”
- Deve a televisão pública ter este tipo de conteúdo? Uma coisa seria a RTP passar a ter um programa regular exclusivamente dedicado a denegrir a Igreja ou a ridicularizar o Cristianismo. Não é o caso. A RTP comprou e transmite uma série de humor. Ainda por cima é humor, no geral, de qualidade. Era mais o que faltava ter um executivo da RTP a aprovar agora cada sketch que aparece nessa série. Insurgirmo-nos contra isto coloca-nos ao nível daqueles maluquinhos que acham que o facto de a RTP 2 transmitir “A Fé dos Homens” viola a constituição.
- Deve a Igreja reagir? Na minha opinião não, isso seria um erro terrível. Uma coisa é um padre ou um bispo reagir na forma de opinião, outra coisa é uma resposta institucional, que apenas dá a esta questão uma importância que não tem.