
Na sua recente recensão ao livro de Daniel Kuebler sobre a compatibilidade entre o Catolicismo e a teoria da evolução, Casey Chalk refere-se à catequese criacionista que recebeu durante a sua formação evangélica. Aponta, especificamente, para a forma como a sua igreja dependia de uma interpretação hiper-literal do Livro do Génesis para refutar as conceções populares da evolução darwinista.
A experiência que tive durante a minha própria jornada evangélica foi semelhante à de Chalk, e testemunhei em primeira mão o fenómeno que ele descreve. Gostaria, contudo, de aprofundar um pouco mais a questão e sugerir que detrás desta exegese hiper-literal se esconde um problema ainda maior. Chamemos-lhe a falácia do biblicismo.
Esta falácia envolve não apenas uma leitura hiper-literal da Bíblia, mas também uma incompreensão básica da sua própria natureza. O raciocínio biblicista funciona mais ou menos assim: a Bíblia aborda muitos tópicos (eventos históricos, o mundo natural, política, artes, etc.); a Bíblia é divinamente inspirada; logo, fornece-nos informações infalíveis sobre todos esses tópicos.
Esta linha de raciocínio leva muitos a encarar as Escrituras como uma espécie de enciclopédia de conhecimento que, no caso do Génesis, nos fornece um verbete sobre como Deus criou o mundo. Para aqueles que assumem esta postura, acreditar no contrário é colocar em causa a veracidade da Escritura, traindo uma “visão baixa” da Bíblia. Mas isto impõe sobre os crentes sinceros um fardo desnecessário.
Apenas podemos especular sobre a razão pela qual o biblicismo encontrou solo tão fértil em alguns círculos evangélicos conservadores (embora, de modo algum, em todos). Talvez porque, tendo rejeitado o papel normativo da Tradição e de um Magistério autoritário, estes cristãos se habituaram a recorrer à única coisa que lhes resta — a Bíblia — para obter respostas a todas as perguntas.
Ainda assim, seria de esperar que uma crença forte na sola scriptura os levasse a perguntar o que a própria Bíblia tem a dizer. Terá Deus pretendido realmente que as Sagradas Escrituras servissem como uma espécie de enciclopédia de conhecimento, ou será o seu propósito mais específico do que isso?
Ironicamente, a própria passagem da Escritura a que estes cristãos apelam para justificar a crença na sua inspiração divina também expressa o seu propósito principal e, ao fazê-lo, subverte os seus pressupostos enciclopédicos. Refiro-me, naturalmente, ao locus classicus: 2 Timóteo 3, 15-17.
Ali, o Apóstolo Paulo declara que toda a Escritura é divinamente inspirada (literalmente: insuflada por Deus). Mas essa afirmação audaz, com a qual nenhum cristão ortodoxo discordaria, é prefaciada por uma clara declaração de propósito: para nos dar “a sabedoria que conduz à salvação, pela fé em Cristo Jesus”.
Além disso, a declaração é seguida por instruções claras sobre os usos legítimos da Escritura — “para ensinar, para convencer, para corrigir e para educar na justiça” — e estes visam um fim muito específico: “a fim de que o homem de Deus seja perfeito e apto para toda a espécie de boas obras”. Não é claro que, pelo seu próprio testemunho, o propósito da Bíblia é exclusivamente redentor?
É por essa razão que os autores humanos da Bíblia utilizam uma linguagem que as pessoas comuns conseguem compreender. A Bíblia contém vários géneros literários, é certo, mas em lugar algum oferece descrições científicas de qualquer tipo (o que, de resto, seria anacrónico).
Ainda hoje dizemos que “amanhã o sol nascerá às 06:30”, embora saibamos que é a combinação da rotação da Terra sobre o seu eixo e a sua revolução em torno do sol que explica a natureza cíclica do dia e da noite. Haverá alguma razão para supor que os capítulos iniciais do Livro do Génesis não utilizam uma linguagem igualmente não técnica?
Tal como acontece com muitos temas, C.S. Lewis, que é bastante popular entre os evangélicos, revela-se uma fonte fidedigna também nesta questão. Ora, deve notar-se que ninguém foi mais crítico do uso indevido da ciência do que Lewis. Para ele, o cientismo introduz sub-repticiamente pressupostos naturalistas ou materialistas na investigação científica genuína, o que resulta em duas grandes falácias.

A primeira é a tendência para reduzir toda a realidade ao foco actual da investigação. Os freudianos, por exemplo, reduzem os seres humanos a um conjunto de complexos, tal como os marxistas nos reduzem a membros de uma classe económica.
Também o cientismo é propenso a dar saltos gigantescos para chegar a conclusões injustificadas. Aqui, Lewis aponta a diferença entre a evolução como teoria científica, que deve ser julgada com base nas melhores provas empíricas disponíveis, e a noção generalizada de desenvolvimentismo, que utiliza a teoria científica como trampolim para promover a perspetiva de um progresso humano infinito.
Mas Lewis também repreendeu os seus irmãos cristãos por adotarem uma visão indefensável da Bíblia para obterem uma visão abrangente das origens do mundo, tanto o “como” exato como o “porquê” primordial da atividade criadora de Deus.
Lewis observa que os cristãos “têm o mau hábito de falar como se a revelação existisse para satisfazer a curiosidade, iluminando toda a Criação de modo a que esta se torne autoexplicativa e todas as perguntas sejam respondidas”. Pelo contrário, para Lewis, a revelação parece “ser puramente prática, dirigida ao animal particular, o Homem Decaído, para o alívio das suas necessidades urgentes — não ao espírito de investigação no homem para a satisfação da sua curiosidade liberal”.
Noutra passagem, escreve que a revelação cristã não mostra sinais “de ter sido pretendida como um système de la nature que responda a todas as perguntas”. Consequentemente, admoesta numa das suas cartas: “Não devemos usar a Bíblia como uma espécie de Enciclopédia”.
As opiniões de Lewis a este respeito refletem de perto as da Igreja Católica. Estas últimas encontram-se resumidas de forma excelente numa secção sobre “Compreender a Bíblia” no sítio da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos. Ali, lemos: “A Bíblia é a história da relação de Deus com o povo que Ele chamou para Si. Não se pretende que seja lida como um texto de história, um livro de ciência ou um manifesto político. Na Bíblia, Deus ensina-nos as verdades de que necessitamos para bem da nossa salvação”. Não será isto o que significa ter uma visão verdadeiramente “alta” da Escritura?
Luis E. Lugo foi professor universitário e executivo de uma fundação, até se reformar. Vive actualmente em Rockford, Michigan.
(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 17 de Fevereiro de 2026 em The Catholic Thing)
© 2026 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org