
No seu excelente e recente livro, Strange New World, Carl Trueman alerta os cristãos contra um otimismo ingénuo nesta nossa “era caótica, inexplorada e sombria”. É um aviso sensato. Há muito na cultura atual que chocaria qualquer um até à sobriedade — especialmente os crentes. Ao mesmo tempo, pode-se defender um “otimismo informado”, perante fundamentos racionais de que o Cristianismo receberá uma atenção mais séria no Ocidente nos anos vindouros.
Afinal, há mais de sessenta anos que vivemos sob a tirania de uma declaração coletiva de que eu pertenço a mim mesmo e a mais ninguém — de que eu decido as questões da vida e o dar, tirar ou prevenir a vida; de que eu, e mais ninguém, tenho o direito de fazer com o meu corpo o que bem entender.
E este repúdio da verdade de que não pertencemos a nós próprios pode agora ser julgado pelos seus frutos, que estão por todo o lado à nossa volta. A declaração de que eu pertenço a mim mesmo, o grito de guerra fundamental da revolução sexual, tornou a vida radicalmente diferente e, em vários aspetos, pior para nós do que para quaisquer outros seres humanos na história.
Esta é uma afirmação ambiciosa, mas o registo histórico confirma-a.
A vida segundo o credo eu pertenço a mim mesmo e a mais ninguém criou um sofrimento maciço, que até há pouco tempo passava despercebido a todos excepto aos crentes. Essa negação enraizada está agora a mudar — e está a mudar precisamente porque os danos se tornaram inevitáveis.
O tributo pago ao ídolo da autonomia encontra-se em todo o lado: nas legiões de jovens desequilibrados de hoje, nas taxas de problemas psicológicos que têm vindo a aumentar há décadas, nos estudos académicos sobre a solidão, na agitação social, na nostalgia cada vez mais expressa de um mundo que sente a falta das suas crianças. O veredicto está dado.
Além disso, a declaração de que eu pertenço a mim mesmo no que diz respeito ao sexo e ao prazer sexual resultou no maior impedimento individual ao romance, à família e ao matrimónio nos dias de hoje: o consumo compulsivo de pornografia por um grande número de jovens homens e algumas jovens mulheres.
Como os terapeutas sabem, um resultado dessa obsessão é o facto de os indivíduos se tornarem incapazes de um romance em tempo real. Este desfecho terrível, que poderá ser o mais terrível de todos os resultados da revolução, transforma essa declaração — eu pertenço a mim mesmo e a mais ninguém — num epitáfio para o próprio amor.
Isto leva-nos, paradoxalmente, a um primeiro motivo de esperança. Os danos são tão patentes e inquestionáveis que vozes fora das órbitas religiosas começaram finalmente a chamar a atenção para eles.

Estão agora a surgir novos cepticismos e novas acusações contra a autonomia sexual desenfreada — inclusive por parte de escritores que dizem preferir não se alinhar com o ensino cristão tradicional, mas que, no entanto, foram conduzidos pela lógica e pela evidência para a mesma vizinhança.
Esta viragem para o revisionismo é também muito positiva. Ter vozes seculares alinhadas com o ensino da Igreja em questões sociais, por mais relutantes que sejam e independentemente de darem ou não crédito aos cristãos ou ao Cristianismo, é uma vitória clara para a Causa.
Isto aponta-nos para mais uma fonte de esperança. Noutra reviravolta que não teria sido prevista nem há dez anos, a conversão e a observância religiosa já não são fenómenos inauditos, mesmo nos campus mais de elite e secularizados. Na verdade, estão a aumentar — como o intelectual liberal Mark Lilla notou no ano passado (e com inquietação) num ensaio para a New York Review of Books sobre a sua própria universidade, Columbia.
“Ao longo da última década”, observou ele, “o interesse pelas ideias e práticas católicas tem crescido entre as elites intelectuais de direita, e não é invulgar encontrar jovens conservadores em instituições da Ivy League que se converteram ou renovaram a sua fé desde que entraram na faculdade.”
Columbia não está sozinha. Na primavera passada, dei palestras na minha própria alma mater, a Universidade de Cornell, durante muito tempo a mais secular das Ivies, cuja cultura política está perenemente imersa na esquerda radical. Surgiram ali sinais impressionantes de vida religiosa: no COLLIS, um instituto intelectual católico com uma liderança enérgica e empenhada; na Chesterton House, uma residência e centro protestante cuja programação inclui estudo bíblico, boas obras, oração comunitária e outro tipo de companheirismo; e num esprit de corps contagiante em todo o campus entre protestantes e católicos.
Noutros locais, noutros recintos universitários, as iniciativas e instituições proliferam, entregando de novo as tradições da fé. Os Círculos Tomistas, que partilham os ensinamentos de S. Tomás e outros, atraem estudantes curiosos de toda a parte.
Na Universidade de St. Thomas, em Houston, para citar outra, está em curso uma nova e entusiasmante programação católica, especialmente no Nesti Center for Faith & Culture; esta inclui o único Mestrado oferecido no mundo em Estudos de Género e Mulheres Católicas. Um simpósio de inverno de dois dias, realizado recentemente e com uma participação robusta, sobre o que João Paulo o Grande chamou “génio feminino”, ofereceu mais uma medida desta ávida comunidade católica em ação.
Refletir sobre estes movimentos inesperados é apercebermo-nos de algo fácil de ignorar nesta era justamente descrita como “caótica, inexplorada e sombria”. Afinal, não saímos de mãos vazias da experiência dos últimos sessenta anos.
De uma forma que não é amplamente compreendida, mas que o será, a desordem pós-revolucionária de hoje diz-nos algo. Diz-nos que viver como se não pertencêssemos a nós próprios protege-nos melhor do que viver sob o individualismo expressivo. A verdade do ensino cristão é visível no registo negativo de se viver sem ele.
Algum dia, mais almas futuras compreenderão — e rejeitarão — o credo atual que privilegia a autonomia acima de tudo. Quando isso acontecer, os cristãos do futuro, e outros, olharão para trás em busca dos sinais que conduziram a esse despertar futuro. E descobrirão que, no início de 2026, um número inesperado e significativo desses sinais está a brilhar aqui e agora.
Mary Eberstadt é Investigadora Sénior no Faith and Reason Institute. Este artigo é adaptada de um discurso proferido na conferência anual “Mere Anglicanism” em Charleston, Carolina do Sul, a 23 de janeiro de 2026.
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 30 de Janeiro de 2026)
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