
A guerra é uma coisa terrível. Se nela encontramos glória, é porque admiramos os soldados pela sua bravura, perícia e sacrifício. Conheço soldados que desfilam em paradas no Dia do Armistício ou no Quatro de Julho e que se orgulham do seu serviço, exactamente como no Dia de São Crispim, em Azincourt, Henrique V (segundo Shakespear) prometeu aos seus soldados:
Aquele que viver este dia e alcançar a velhice
Todos os anos, na vigília da festa, chamará os vizinhos
E dirá: “Amanhã é São Crispim.”
Então arregaçará a manga e mostrará as cicatrizes,
Dizendo: “Estas feridas tive-as no dia de São Crispim.”
Os velhos esquecem; sim, tudo mais será esquecido,
Mas ele recordará, com redobrada glória,
Os feitos que nesse dia realizou; e então os nossos nomes,
Tão familiares na sua boca como palavras comuns,
Serão de novo lembrados, vivos, nas taças que transbordam.
Mas também conheci soldados e fuzileiros navais que, embora conservem amor e as mais queridas recordações da “irmandade” com quem serviram, nunca desfilam, nem usam as suas condecorações, nem sequer um boné com a insígnia da unidade. E não falam da guerra. O meu pai (Segunda Guerra Mundial) e o meu filho mais velho (Iraque) são assim, embora ambos tenham sido oficiais que entraram tardiamente na guerra e tenham sido poupados ao inferno do Dia D ou da Segunda Batalha de Faluja.
Devemos recordar as palavras do Nosso Senhor: “Ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; vede que não vos alarmeis, porque é necessário que tal aconteça, mas ainda não é o fim.” (Mateus 24:6). E esclarece ainda mais (7–8): “Porque se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes e terramotos em vários lugares: tudo isto é apenas o começo das dores de parto.”
A América não está em guerra na Venezuela, nem contra a Dinamarca na Gronelândia, mas sente-se no ar uma estranha sensação de conflitos iminentes e de escaladas sucessivas. O Presidente Trump afirmou (por enquanto) que não enviará forças expedicionárias para a Gronelândia, mas, se o fizesse, o Presidente Putin lançaria forças ainda maiores na Ucrânia? O Presidente Xi invadiria o Taiwan? Gostariam de o fazer, certamente, e tais incursões por parte dos EUA poderiam encorajá-los — e atenuar moralmente as nossas objecções.
Pode-se duvidar de que Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca, enviasse forças armadas dinamarquesas para a Gronelândia para enfrentar um destacamento dos EUA. De facto, seria talvez imprudente fazê-lo, mesmo que outras nações europeias se juntassem. Mas é dos nossos amigos que estamos a falar.

Uma razão frequentemente invocada para o envolvimento da América no Vietname foi a Teoria do Dominó: se não travássemos ali a tomada do poder pelos comunistas, a Ameaça Vermelha espalhar-se-ia por toda a região. Pois bem, a América falhou, e os dominós caíram, embora — com a excepção do Camboja — as consequências não tenham sido catastróficas. E, tal como aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, quando os nossos inimigos (Alemanha, Japão e Itália) rapidamente se tornaram aliados no pós-guerra, acabámos por formar alianças (talvez menos robustas) no Sudeste Asiático.
Os cenários actuais de guerra envolvendo os EUA, a antiga URSS e a China comunista parecem não satisfazer os critérios da guerra justa, ao passo que a captura de Nicolás Maduro, da Venezuela — cujo regime conduzia uma operação de narcoterrorismo directamente contra os Estados Unidos — sim, na minha opinião, mas apenas se qualquer “ocupação” terminar rapidamente.
Se olhar para um mapa, poderá pensar que a Gronelândia está mais próxima dos EUA do que da Dinamarca (não está — não se deixe enganar pela projecção cartográfica), e poderá notar que a Dinamarca fica no Hemisfério Oriental e a Gronelândia no Ocidental. A geografia é uma realidade estratégica e geopolítica poderosa, mas não constitui um casus belli.
A população do Estado de Nova Iorque está a diminuir, sobretudo se não contarmos com os imigrantes ilegais. Poderá diminuir ainda mais se as políticas socialistas do presidente da câmara de Nova Iorque levarem a uma onda de emigração fiscal. E, se a governadora Kathy Hochul se sentisse lesada por isso, poderia ordenar a entrada de tropas da Guarda Nacional em Nova Jérsia e no Connecticut para reforçar a posição do Estado do Império em termos de geografia, população e… receitas fiscais.
Se os EUA precisam de defesas setentrionais e orientais mais fortes e mais eficazes contra ataques, porque não apontar a mira ao Canadá? É um país ainda maior do que os EUA em milhas quadradas! Isso sim é segurança! E pensem no efeito para o défice dos EUA de tributar mais 41,5 milhões de pessoas!
[Nota aos leitores: estou a brincar.]
O ponto aqui — se conseguir lá chegar — é que deveríamos estar a fazer tudo ao nosso alcance para evitar conflitos, não para os atiçar. Paul McCartney fez uma canção, “Give Ireland Back to the Irish”, em 1972, após os acontecimentos do Bloody Sunday, basicamente um apelo ao Governo de Downing Street para retirar as tropas do Ulster e parar de matar católicos. (Vinte e seis pessoas desarmadas foram abatidas a tiro e muitas outras ficaram feridas — todas católicas.)
Trump, Putin e Maduro (excluo Xi da lista porque é formalmente ateu) precisam de recordar Mateus 5:9: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” Falando em Agosto do ano passado sobre os seus esforços para alcançar a paz na Ucrânia, o Sr. Trump expressou alguma preocupação pessoal: “Quero tentar chegar ao céu, se for possível. Pelo que oiço, não me está a correr bem. Estou mesmo no fundo da hierarquia. Mas se conseguir chegar ao céu, isto [fazer a paz] será uma das razões.” Em Outubro, reforçou ainda mais: “Não acho que haja nada que me vá levar ao céu… Acho que talvez não esteja destinado ao céu.”
Não tem de ser assim, Sr. Presidente. Mas os seus desígnios em relação à Gronelândia podem estar a aproximá-lo do abismo. Deixe os gronelandeses serem gronelandeses — ou dinamarqueses, ou o que quer que seja. São um povo soberano que deve ser agente do seu próprio destino, tal como eu e o senhor.
A sua versão da Doutrina Monroe, mesmo como táctica negocial, parece mais a do Earl do que a do James. Earl “the Pearl” Monroe, a antiga estrela dos New York Knicks, costumava dizer: “A questão é que eu não sei o que vou fazer com a bola, e se eu não sei, tenho a certeza de que o tipo que me marca também não sabe.”
[Nota aos leitores: não estou a brincar.]
Brad Miner, marido e pai, é editor sénior da The Catholic Thing e membro sénior do Faith & Reason Institute. É ex-editor literário da National Review e teve uma longa carreira na indústria editorial. O seu livro mais recente é Sons of St. Patrick, escrito em coautoria com George J. Marlin. O seu best-seller The Compleat Gentleman está agora disponível na terceira edição revista e também em versão áudio da Audible (lida por Bob Souer). O Sr. Miner foi membro do conselho da Aid to the Church In Need USA e também do conselho de recrutamento do Selective Service System no condado de Westchester, Nova Iorque.
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 26 de Janeiro de 2026)
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