
Desde o início do pontificado do Papa Leão XIV, tem-se gerado especulação sobre a sua posição a cerca da inteligência artificial (IA). Embora ainda não tenha sido publicada uma encíclica oficial sobre a IA, o Santo Padre fez vários comentários sobre o assunto, alguns dos quais muito recentemente, num discurso a jovens americanos no final do ano passado. Na altura, afirmou categoricamente que “a IA não pode oferecer sabedoria real… Não ficará maravilhada, num espanto autêntico, perante a beleza da criação de Deus… A IA nunca poderá substituir o dom único que cada um de vós representa para o mundo.”
Como sugerem os seus comentários, os perigos de uma cultura de IA pseudo-espiritual estão, de facto, relacionados com a crise demográfica que se desenrola em todo o Ocidente. Uma geração que não consegue maravilhar-se com a Criação, sem “espanto” e “sabedoria”, terá dificuldade em acolher nova vida nela. A geração mais jovem já não sonha ter filhos, e isto tem consequências profundas. O avanço do declínio demográfico está a tornar-se uma questão séria: as taxas de fertilidade estão muito abaixo do nível de substituição, as populações estão a envelhecer e as fissuras criadas pela pressão populacional começam a aparecer.
Neste momento, a Europa já tem um índice sintético de fecundidade (ISF) médio de cerca de 1,4 filhos por mulher, significativamente abaixo da taxa de substituição de 2,1 necessária para a manutenção da população. Na União Europeia, em 2023, o ISF situava-se em cerca de 1,38 nados-vivos por mulher, e mais de um terço dos países da UE apresentava taxas iguais ou inferiores a 1,3.
O vazio espiritual persistente, particularmente nos EUA e na Europa, é fustigado por um ar de desencanto generalizado, desprovido de um sentido de mistério e transcendência. A nossa crise cultural contínua já produziu efeitos demográficos negativos e continuará a fazê-lo sem uma recuperação do espírito de autossacrifício e serviço a que o Papa se referiu no seu discurso.
Muitos apressam-se a relegar a crise demográfica para um problema económico. Mas o desejo de ter filhos tem origem em muito mais do que o facto de se ser financeiramente estável ou de se ter capacidade para comprar casa. As pessoas já foram pobres no passado e, mesmo assim, acolheram famílias numerosas nas suas vidas. A minha geração cresceu a par da tecnologia, numa era obcecada pela optimização. Agora, começamos a interagir com a IA. O nosso sentido de espanto foi definitivamente embotado. Como se pode esperar que tragamos nova vida ao mundo quando estamos espiritualmente relutantes em regenerá-lo?
Aos ouvidos de um homem comum da Geração Z secular, ter uma esposa e família é como pedir-lhe que assuma um fardo avassalador que apenas piorará o seu lugar no universo materialista e finito. Se pensamos que o nosso nascimento é um acidente e não um dom de Deus, como poderemos pensar nos filhos como algo mais do que uma obrigação?
Desde que a maioria de nós se lembra, o nosso mundo tem sido mediado através de feeds algorítmicos, quantificado através de métricas e, agora, adaptado pela IA. O salto de fé radical necessário para acolher uma nova vida — outro ser humano, um filho — é, de facto, inimaginável. Se não conseguimos imaginar um mundo diferente daquele que já ocupamos, porquê imaginar filhos — uma escolha que admite intrinsecamente a imprevisibilidade?
Como a Igreja tem afirmado frequentemente, a tecnologia pode tornar a vida melhor e mais segura. Mas, claro, não pode substituir o desejo inato nos nossos corações por um sentido que vá além do consumo ou da conveniência. Sob essa perspetiva, o nosso atual declínio demográfico é quase inevitável. Como esperamos evitar a extinção enquanto povo se não valorizamos a vida, se não concebemos a parentalidade como uma vocação e se não fundamentamos as nossas políticas e cultura na ética pró-vida? Se o Ocidente quer verdadeiramente florescer — não apenas sobreviver, mas florescer — então a resposta não pode ser mais gadgets, mais subsídios ou mais créditos fiscais.
O que é necessário é uma renovação de visão, começando pela recuperação do sentido do sagrado na vida humana, onde abrimos os nossos corações ao mistério, ao transcendente, aos milagres. A arte, a música, a natureza, a oração e a comunidade são canais importantes da cultura e têm o poder de transmitir a sabedoria ancestral de que os filhos são dons e expressões de esperança.

Em segundo lugar, exige uma mudança cultural do individualismo para a generatividade. Temos de nos reorientar do típico cálculo secular de “o que é que eu quero para mim” para a questão mais profunda: “o que é que a minha geração deixará para trás?”. A família e os filhos são a coroa da Criação e as raízes da comunidade; devemos tratá-los como tal. O ensinamento da Igreja, de que as nossas vidas são para Deus e que o nosso impacto terreno é secundário, é vital aqui.
Em terceiro lugar, temos de fundamentar as políticas numa antropologia cristã correta: preservar a vida desde a conceção até à morte natural. As políticas que desconsideram a santidade da vida são equivocadas também num contexto secular, se levarem à nossa extinção. Este é um dos erros da revolução sexual, que mentiu às mulheres ao dizer que a sua felicidade se encontra, em última análise, na carreira, e que levou ao enquadramento do casamento como uma instituição opressiva.
Em quarto lugar, uma renovação espiritual intencional deve refletir-se nas políticas públicas e nas instituições sociais. Como o Papa Leão XIV nos lembrou recentemente, uma verdadeira posição pró-vida implica muito mais do que opor-se ao aborto. Vale também a pena trabalhar para um padrão cultural que celebre a vida em todas as suas fases, apoie financeiramente as famílias e transmita que as famílias são boas. Tudo isto envia um sinal necessário aos jovens de que a sua sociedade celebra as crianças e quer ser acolhedora para com elas.
Dotar as gerações em idade fértil de capacidade para agir com imaginação e coragem exigirá estratégia e ponderação. Dizer simplesmente à Geração Z “vocês deviam ter filhos” não funcionará. Temos de lhes mostrar por que razão devem ter filhos. E os pais que já defendem sem desculpas a sua decisão de ter filhos dão melhor testemunho do que qualquer discurso poderia dar.
Eles mostram que estar aberto à vida e ter uma família é a maior aventura de esperança num mundo carregado de negatividade. O nosso declínio demográfico é um sintoma do vazio espiritual no nosso mundo; a falta de imaginação nos jovens é a sua manifestação. E as crianças são a cura.
Kristen Ziccarelli é católica e vive e trabalha em Washington, D.C.
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 27 de Janeiro de 2026)
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