
A Sociedade de São Pio X anunciou que vai ordenar novos bispos, apesar de não ter para isso autorização do Papa. Recordo que a Sociedade foi fundada pelo arcebispo Marcel Lefebvre, que foi excomungado (e assim morreu) precisamente por ordenar bispos sem a autorização de Roma.
No tempo de Bento XVI acompanhei com algum entusiasmo o que parecia ser a reunificação iminente da SSPX a Roma, mas esta acabou por não acontecer. Agora os responsáveis da Sociedade parecem apostados em persistir no erro e cavar ainda mais o fosso.
A minha primeira reacção quando soube da notícia era que seria bluff, uma tentativa de forçar Roma a fazer cedências. Essa é de facto uma possibilidade, mas também pode ser uma questão, como disse um amigo meu, de “sobrevivência sacramental”.
As facções na Igreja têm esta curiosidade. Enquanto os grupos progressistas tendem a marimbar-se para questões sacramentais e doutrinais, vivendo com algum conforto dentro da Igreja mesmo que defendam coisas antagónicas ao que a Igreja ensina, os grupos de pendor mais tradicionalista não conseguem desligar-se da disciplina sacramental e doutrinal. É por isso que vemos mais cismas a rupturas com tradicionalistas do que com progressistas. Os tradicionalistas apontam para este desequilíbrio e dizem que é porque são perseguidos por Roma, que não chateia os outros, mas a explicação estará antes na sua própria natureza.
A SSPX sabe que não pode reivindicar ser o resquício da verdadeira Igreja sem manter ordens válidas – ainda que ilícitas – e para garantir isso só tem duas opções: ou mantém os seus próprios bispos, que possam assegurar essa continuidade sacramental, ordenando novos padres e, eventualmente, novos bispos também, ou então voltam-se para o verdadeiro circo de loucura que são os grupinhos e as seitas “católicas” que pululam pelo mundo, a maioria das quais reivindica descendência de um bispo vietnamita que enlouqueceu, entrou em cisma, e andou a ordenar toda a figura ridícula que lhe aparecia pela frente.
Na minha perspectiva, porém, a SSPX enfrenta agora um problema mais grave, diria mesmo existencial, e essa tem a ver com o problema geracional. A cisão protagonizada pelo Arcebispo Marcel Lefebvre foi em 1988. Isso significa que uma parte muito significativa dos fiéis próximos da SSPX terão nascido ou pelo menos crescido já em estado de comunhão irregular, para não dizer mesmo cisma, com Roma. Os novos seminaristas da SSPX não sabem o que é estar em comunhão plena com Roma e há indícios de que as suas posições sobre Roma se têm tornado ainda mais inflexíveis.
Não sou só eu que o digo. Este aviso foi feito diversas vezes pelo bispo Bernard Fellay, anterior superior-geral da SSPX e um dos bispos ordenados por Lefebvre, embora a sua excomunhão tenha sido levantada pelo Papa Bento XVI, como gesto de boa vontade numa altura em que as negociações pareciam bem encaminhadas. Não será por acaso que Fellay não foi reeleito para mais um mandato como superior-geral, tendo sido substituído por um padre que é visto como mais radical.
A confirmarem-se as ordenações de 1 de Julho, isso significará a meu ver uma ruptura total com Roma e a desistência de qualquer esperança de reunificação por parte da SSPX.
Se há uma parte de mim que está farta desta novela, e das constantes exigências, birras e ingratidão da SSPX, há outra, mais racional, que reconhece que as centenas de milhares de pessoas que dependem espiritualmente da SSPX são meus irmãos e irmãs em Cristo, e que a persistência num estado de comunhão irregular escandaliza e fere a unidade do corpo de Cristo que é a Igreja, e isso é uma coisa triste.