
O filósofo político Pascal Bruckner é um clássico intelectual francês. Criado católico e educado em colégios jesuítas, o seu pensamento adulto é profundamente secular. Mas possui um intelecto apurado, uma escrita sagaz e um cepticismo vivo. E, para seu mérito, aplica essas qualidades de forma vigorosa a uma vasta gama de vacas sagradas — incluindo a modernidade sem Deus, da qual ele próprio é fruto.
Um dos principais alvos de Bruckner é o culto da felicidade falsificada que, na sua opinião, governa o nosso tempo. Por um lado, defende que a fé religiosa infantiliza os seus seguidores. “É típico do cristianismo”, escreve ele, “ter sobredramatizado a nossa existência ao sujeitá-la à alternativa entre o inferno e o paraíso. (…) Passar ou reprovar: o paraíso tem a estrutura de uma escola.”
Podem os parcos pecados do nosso pequeno mundo — pergunta Bruckner com ironia — merecer um tormento infinitamente desproporcionado no além? No entanto, ao mesmo tempo, observa que a rejeição de Deus por parte do homem não produziu liberdade, mas antes um universo vulgar de publicidade. Na prática, o que foi libertado pela suposta maturidade psíquica e sexual da humanidade “foi menos a nossa libido do que o nosso apetite por compras ilimitadas”.
Para Bruckner, tornámo-nos pouco mais do que “remadores escravos do prazer”. Cada nova distracção, gadget e maravilha tecnológica aprofunda o nosso hedonismo no seu próprio castigo exausto.
As culturas do passado aceitavam o sofrimento como um elemento normal, muitas vezes significativo, da vida. A felicidade era vista como frágil e transitória. A verdadeira alegria era excepcional. Para Bruckner, a nossa época, sobretudo no Ocidente, virou esta visão do avesso. Espera-se — na verdade o marketing permanente ordena-nos — que sejamos felizes com a torrente de opções que nos é apresentada.
Quando não o somos, somos fracassados; ou pior, desviantes. O resultado é que, apesar de montanhas de provas em contrário no mundo real, insistimos num espírito de optimismo obrigatório; somos “as primeiras sociedades do mundo em que as pessoas são infelizes por não serem felizes”.
No fim, a modernidade “elevou tanto as esperanças humanas que só pode desiludir-nos”. E isto constitui uma vingança amarga para as religiões: “Podem estar em má forma, mas aquilo que as substituiu não está muito melhor.”
É verdade. Bruckner é um remédio forte. Ninguém o confundirá com um optimista alegre. A sua falta de fé religiosa parece um caso de cegueira autoinfligida. E, apesar de (ou talvez por causa de) a sua formação jesuíta, a sua compreensão do cristianismo parece pouco mais do que adolescente.

Mas no último dia de um ano velho e à beira de um novo, os pensamentos de Bruckner continuam, ainda assim, a merecer reflexão. Um pouco por todo o mundo, esta noite, as pessoas desejarão umas às outras um feliz ano novo. No entanto, as luzes estarão apagadas na casa da família Maier às 22 horas. A ideia de celebrar uma enorme bola eléctrica a descer à meia-noite em Manhattan para dar as boas-vindas a mais um janeiro de ressaca simplesmente não toca o coração.
Então, o que pode significar exactamente “felicidade” numa era de ruído e excitação fabricada — uma era, não por acaso, rica em ansiedade e conflito? E quanto à alegria? Ainda estamos no tempo do Natal, a própria razão de ser do “alegria no mundo”.
Para C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien, felicidade e alegria estão relacionadas, mas são, em última análise, coisas muito diferentes. Isto torna-se claro ao longo da sua ficção e de outros escritos. Em Tolkien, a felicidade é sempre, de algum modo, desinteressada. Brota de fazer o que é correcto, mesmo a grande custo. Está ligada ao sacrifício, à amizade, ao serviço fiel, ao cumprimento da missão que nos foi confiada e ao gozo dos prazeres simples do mundo natural. Lewis, de modo semelhante, via a felicidade como uma satisfação própria deste mundo, fruto do sucesso, da camaradagem, dos prazeres inocentes e dos confortos básicos.
Repare-se que nada disto sobrevive facilmente numa cultura de apetites constantemente provocados e em escalada. De facto, a felicidade de uma sociedade — pense-se no estado da nossa — parece inversamente proporcional ao egocentrismo e à avidez dos seus membros. O que, naturalmente, confirma a tese de Pascal Bruckner: a felicidade que perseguimos com tanta frequência e tanta ansiedade é falsa.
E, tal como acontece com a felicidade, assim sucede de forma ainda mais profunda com a alegria.
Tolkien descreveu a história humana como uma “eucatástrofe” — um drama de desastre redimido pela intervenção decisiva e imerecida do amor de Deus. Uma vez plenamente apreendido pela alma humana, o dom presente nesse drama é a alegria: o avassalador e inesperado “prender da respiração, um sobressalto e elevação do coração, próximo (ou mesmo acompanhado) de lágrimas”, que surge com a experiência do transcendente.
Para Lewis, amigo de Tolkien, a alegria é uma espécie de dor preciosa e de anseio; “o desejo insatisfeito que é, ele próprio, mais desejável do que qualquer outra satisfação”. A alegria eleva o nosso coração para algo santo e além do nosso mundo, e não pode ser capturada nem repetida por decreto. Lewis escreveu que “se nos encontramos com um desejo que nada neste mundo consegue satisfazer, a explicação mais provável é que fomos feitos para outro mundo”. O coração anseia pela beleza desse outro mundo: tal é a natureza da alegria.
Hoje é o sétimo dia do Natal. Demasiado depressa colocamos Belém no espelho retrovisor enquanto avançamos rumo a 2026. As decorações do Dia dos Namorados já começam a surgir nas lojas. Nesse processo, passamos apressadamente pela Encarnação e pelo que ela significa para o nosso propósito nesta vida e para a nossa alegria na próxima. A verdadeira felicidade de qualquer ano novo nada tem a ver com as coisas que podemos comprar. Encontrá-la-emos apenas no Menino Jesus e na mulher que O deu à luz: Maria, Theotokos; Maria, Mãe de Deus, cuja solenidade celebramos no Dia de Ano Novo.
Ela é também nossa mãe. E devemos voltar-nos para ela.
Francis X. Maier é investigador senior em Estudos católicos no Ethics and Public Policy Center. O seu mais recente livro é True Confessions: Voices of Faith from a Life in the Church .
Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 31 de Dezembro de 2025)
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