
Durante uma década de serviço na Secretaria de Estado do Vaticano, ficava constantemente perplexo com a falta de vontade ou a incapacidade da Santa Sé para utilizar estruturas eclesiais já existentes para uma governação eficaz. Com os Cardeais reunidos em Roma nos próximos dias, vale a pena analisar com atenção algumas formas recentes de funcionamento da Igreja.
Um problema financeiro? Cria-se uma nova comissão para o resolver. Depois cria-se outra para supervisionar o trabalho da primeira.
Diaconisas? Nomeia-se um grupo de especialistas para a estudar (2014). Depois nomeia-se outro para a estudar novamente (2020), ignorando entretanto o estudo exaustivo da Comissão Teológica Internacional sobre o diaconado permanente, publicado em 2002.
Talvez o mais desconcertante tenha sido a criação, por parte do Papa Francisco, de uma “Comissão Pontifícia de Referência sobre a Organização da Estrutura Económico-Administrativa da Santa Sé”, um organismo destinado a colaborar com um Conselho de Cardeais que já tinha sido criado pelo seu antecessor, Bento XVI.
O crescimento desmedido da burocracia, algo de que a Cúria Romana sofre há anos, é um sinal seguro de disfunção organizacional. Uma forma de a conter é revitalizar precisamente o organismo cujo fim canónico é “assistir o Romano Pontífice (…) no cuidado quotidiano da Igreja universal” (Código de Direito Canónico, cân. 349).
Há duas razões para a subutilização do Colégio dos Cardeais: (1) a falta de apreço pela ligação entre a tarefa ocasional do Colégio na eleição de um novo pontífice e o seu papel permanente de o assistir no cuidado diário da Igreja universal; e (2) uma conceção errada do que constitui “questões de maior importância” (quaestiones maioris momenti) e “assuntos graves” (graviora negotia).
Quanto ao primeiro ponto, os cardeais não residentes (isto é, aqueles que não exercem cargos curiais permanentes em Roma) sentem-se compreensivelmente frustrados quando o seu papel na gestão da Igreja universal se reduz a votar na Capela Sistina. É razoável que esperem algum acompanhamento posterior, para poderem apoiar o homem que escolheram na implementação da visão para a Igreja que eles próprios exprimiram durante as Congregações Gerais que precedem o Conclave.
No que diz respeito aos cardeais residentes, sempre achei estranho que o Santo Padre lhes “conceda” audiências de forma não menos formal do que a qualquer outro visitante. O boletim diário da Santa Sé anuncia consultas com chefes de dicastérios como se o Papa estivesse a receber um embaixador comum ou alguma outra dignidade externa.
A função consultiva dos cardeais poderia ser exercida de forma mais eficiente — se não mesmo mais agradável e fraterna — através de telefonemas ocasionais e almoços informais. O Santo Padre deveria ter os números de todos os 252 Cardeais guardados no seu telemóvel, e cada um deles deveria ter acesso direto a ele. Seria um passo saudável em direção a uma colegialidade capaz de sustentar qualquer forma de sinodalidade que ele tenha em mente. Lembro-me bem de acompanhar cardeais perdidos pelos corredores do Palácio Apostólico, enquanto tentavam, em vão, encontrar o gabinete que supostamente deviam visitar nesse dia.

O segundo problema é uma sobrestimação grosseira do que constitui uma “questão séria” ou um “assunto grave” (cf. cân. 349 e 352). Quando trabalhava na Cúria, entendia que isso incluía praticamente tudo o que não pudesse ser resolvido rotineiramente através das políticas e procedimentos da Cúria Romana.
No entanto, sempre que sugeria que determinada matéria específica deveria ser tratada num Consistório, os meus colegas descartavam-na como não sendo suficientemente “séria” ou “grave”. Para eles, “sério” ou “grave” significava abuso sexual, fraude financeira ou escândalo público. Para mim, significava tudo aquilo que valesse a pena consultar com os colaboradores mais próximos, precisamente porque eles sabem melhor do que nós como tratar dessas questões.
Pela minha experiência na Secretaria de Estado, os cardeais não residentes estavam frequentemente um passo à frente e poderiam ter evitado erros graves (como o caso do Bispo Williamson em 2009). Antes mesmo de a tinta secar no Summorum Pontificum em 2007, cardeais-chave já perguntavam se — e como — os calendários litúrgicos das Formas Ordinária e Extraordinária poderiam ser harmonizados.
Suspeito que este seja um exemplo perfeito do tipo de “questão séria” que os cardeais arcebispos de grandes arquidioceses podem e irão apresentar no Consistório desta semana. De forma semelhante, vários cardeais cuja sabedoria muito admiro têm insistido durante décadas junto da Santa Sé sobre a prudência de transferir os Dias Santos de Guarda para o domingo. Isso revela bem onde estão os seus corações e as suas preocupações.
Se a Igreja e o Sucessor de Pedro quiserem fazer melhor uso do Colégio, deve haver um reconhecimento explícito de que “questões sérias” e “assuntos graves” não se limitam, de modo algum, a crises e catástrofes.
Tendo em conta o trabalho preparatório que o Papa Leão atribuiu aos Cardeais para a reunião de 7-8 de janeiro, este Consistório Extraordinário oferece uma oportunidade de ouro para revitalizar o papel do Colégio na governação da Igreja universal.
O facto de Predicate Evangelium (“Sobre a Cúria Romana e o seu serviço à Igreja no mundo”) constar da lista de leituras indica que o Santo Padre está a levar a sério a questão de saber quem trabalha para quem. Afinal, o Livro II do Código de Direito Canónico trata da Cúria Romana (Capítulo IV) apenas depois do Colégio dos Cardeais (Capítulo III), e este — para o bem ou para o mal — apenas depois do Sínodo dos Bispos (Capítulo II). O Capítulo I é naturalmente dedicado ao Romano Pontífice e ao Colégio dos Bispos, como deve ser.
Certa vez, um funcionário do Vaticano garantiu ao Papa João XXIII que seria absolutamente impossível iniciar o Concílio Vaticano II em 1963. “Muito bem”, respondeu il papa buono. “Abrimo-lo em 1962.”
De modo semelhante, não é cedo demais para o Papa Leão XIV abrir um caminho sinodal começando por revitalizar o papel ativo do Colégio dos Cardeais na orientação da Igreja universal.
Daniel B. Gallagher lecciona filosofia e literatura no Ralston College. Anteriormente, foi secretário de latim dos Papas Bento XVI e Francisco.
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 6 de Janeiro de 2026)
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