
Na sua recente “Mensagem aos participantes na semana social do Peru”, o Papa Leão XIV fez umas observações dignas de nota: “Devemos compreender que toda a acção social da Igreja deve ter como centro e objectivo a proclamação do Evangelho de Cristo, para que, sem negligenciar o imediato, permaneçamos sempre atentos ao fim próprio e último do nosso serviço. Pois se não oferecermos Cristo por inteiro, estaremos sempre a dar extremamente pouco.”
Essa é já uma clarificação muito útil, mas acrescentou: “Queridos irmãos e irmãs: não se trata de dois amores, mas antes um e o mesmo, que nos move a dar tanto o pão espiritual como o pão da Palavra que, pelo seu próprio dinamismo, gera a fome do Pão do Céu, que apenas a Igreja pode dar, por mandato e vontade de Cristo, e que nenhuma instituição humana, por mais bem-intencionada que seja, pode substituir. E, pela nossa parte, não esqueçamos as palavras do Apóstolo aos Gentios: ‘E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos’” (Gálatas, 6,9).
Nem vos digo como é reconfortante ler estas palavras do Santo Padre. Nos primeiros meses do pontificado de Leão temos assistido a uma visão pronunciadamente cristocêntrica da nossa fé, articulada com claridade e vigor evangélico. E não se limita à vida espiritual da Igreja, mas como vimos aqui de forma clara, está também no coração da obra caritativa da Igreja.
Durante vários anos eu trabalhei para a Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB), ligado à promoção da obra caritativa da Igreja. Tenho orgulho no que alcançámos, porém havia sempre a preocupação de que o objectivo final do nosso trabalho era “extremamente pouco” comparado com a verdadeira missão da nossa fé: a salvação.
O nosso trabalho passava por criar espaço para a Igreja poder competir com outras organizações não governamentais. É uma missão de valor. Milhões de pessoas pobres e marginalizadas têm sido servidas, e continuam a sê-lo, pela generosidade da Igreja. É um esforço que não deve ser subvalorizado. Contudo, se acreditamos verdadeiramente no Credo de Nicéia, é extremamente pouco comparado com a eternidade, e as palavras do Santo Padre deviam servir para reexaminarmos a forma como a Igreja entende a sua missão na sociedade, como fermento para o bem comum.
O bem comum não é apenas bem-estar material: comida, abrigo, emprego, saúde física e mental, e por aí fora. Tudo isto é bom e devia ser parte da missão da Igreja enquanto agente caritativo. Porém, o bem comum último é aquilo que um dia todos vamos enfrentar, de uma forma ou de outra, nos próximos anos (para alguns amanhã, para outros daqui a setenta anos, mas ninguém escapa), que é o nosso destino eterno. Tudo o que fica aquém dessa consideração, sendo importante, é extremamente pouco.
O trabalho de muitas organizações caritativas católicas, como do trabalho de sensibilização da opinião pública da USCCB, pode por vezes ter vistas curtas. Nem vos digo quantas cartas escrevi ou editei para o Congresso ou para a Presidência que podiam ter sido redigidas por qualquer outra ONG. Sim, é verdade que os congressistas não se preocupam especialmente pela missão escatológica da Igreja, portanto talvez não fizesse sentido começar com esse tipo de linguagem, mas ignorar intencionalmente o propósito salvífico da Igreja na nossa comunicação parece-me um falhanço na promoção da missão essencial da Igreja.
O propósito da Igreja é de estarmos unidos a Cristo para a salvação das almas, primeiro a nossa e depois ajudar os outros no seu caminho. A obra caritativa da Igreja está nesta categoria, mas peca por insuficiente se não estiver unida à salvação.
Pois se não oferecermos Cristo por inteiro, estaremos sempre a dar extremamente pouco.
Pela minha experiência a trabalhar na burocracia da Igreja, a ideia de oferecer Cristo por inteiro não costumava ser o enfoque do nosso trabalho. É difícil dizer que tenha sido sequer uma noção presente.
Penso como as coisas poderiam ter sido diferentes no meu tempo na USCCB se tivesse trabalhado verdadeiramente para oferecer Cristo por inteiro. Sei que o meu trabalho teria sido diferente, e não quero menosprezar o bem que muitos de nós tentámos fazer, mas era extremamente pouco comparado com o fim próprio e último do nosso serviço.

Às vezes penso se uma grande parte do trabalho de sensibilização pública para o trabalho da USCCB não é apenas fogo de vista, ou uma tentativa errada de fazer trabalho caritativo sem Cristo. Não acho que seja, mas é uma questão que deve ser seriamente considerada pelos bispos. Existe uma inércia dentro da USCCB que desencoraja repensar como as coisas são feitas, e porquê. Na melhor das hipóteses isto contribui para ineficiências, na pior, mina o trabalho.
Como o Papa Francisco já tinha avisado, a Igreja não é simplesmente uma ONG. É o Corpo Místico de Cristo. Dá pão para alimentar o corpo, mas mais importante que isso, é a fonte do Pão da Vida Eterna, o Pão do Céu.
Defender a Liberdade religiosa, os serviços caritativos, a justiça social e até o trabalho pró-vida da Igreja é tudo extremamente pouco se não estiver ligado à missão salvífica da Igreja. Há quem diga que todo esse trabalho deriva implicitamente de Cristo, e para Ele aponta, mas não tenho tanta certeza.
Idealmente sim, mas o ideal pode não ser a realidade. Penso que a Igreja seria mais bem servida se a ligação entre a obra caritativa e o seu trabalho de sensibilização pública fosse mais explicitamente associada à proclamação do Evangelho de Cristo.
Pois se não oferecermos Cristo por inteiro, estaremos sempre a dar extremamente pouco.
Jayd Henricks é presidente de Catholic Laity and Clergy for Renewal e anterior Director Executivo das Relações com o Governo da Conferência Episcopal dos Estados Unidos.
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 25 de Agosto de 2025)
© 2025 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org
The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.