
As planícies inundáveis do Rio Guadalupe, no Texas, são um local de grande relevância bíblica nestes dias. Imagino, então, que quando as águas furiosas trouxeram morte e destruição, muitos terão pensado no Salmo 69:
Estou atolado em profundo lamaçal, sem nenhum apoio para os pés;
entrei em águas profundas, e a correnteza me submerge.
Quanto a mim, SENHOR, elevo minha oração a ti.
No tempo favorável, Deus, ouve-me, pela grandeza do teu amor;
responde-me pela fidelidade da tua salvação!
Este salmo foi rezado na missa de hoje [terça-feira, 15 Julho] e muitos fiéis americanos, e não poucos pregadores, devem ter pensado naqueles que foram surpreendidos pelas águas no Texas.
No Natal do ano passado assinalámos os 20 anos do tsunami do sudeste-asiático, uma recordação da ferocidade das águas, que mataram mais de 225 mil pessoas, com milhões de deslocados, e que destruíram povoações costeiras ao longo de centenas de quilómetros em catorze países diferentes. As cheias lembram-nos que a visão prevalecente da água em contexto bíblico é de caos, desordem, perigo e morte. É difícil pensar nisso num país rico no Século XXI. Hoje as águas foram domesticadas. No verão servem para nos divertirmos, para andar de barco e de jet-ski, e no inverno cruzamos os oceanos em hotéis flutuantes. Ao longo de todo o ano quantidades inimagináveis de carga são transportadas calmamente pelos rios e através dos mares.
Mas na antiguidade, pelo contrário, não obstante a pesca, o transporte e as chuvas necessárias para os campos, o contexto era sempre de águas que podiam matar. A visão bíblica é difícil de contemplar quando as águas são apenas mais uma parte da natureza que a ingenuidade humana conquistou.
Se perguntar a um típico casal católico sobre o simbolismo da água usada no sacramento do baptismo, eles dirão que serve para deixar o seu filho espiritualmente limpo. É uma resposta inteligente, numa cultura em que o banho diário se tornou normal, e é verdadeira, na medida em que o baptismo nos lava do pecado, original e actual.
Mas poucos pais se recordarão destas palavras de São Paulo: “Quando fomos baptizados na morte, descemos com Ele à sepultura” (Romanos 6,4). Quem é que pensa na pia baptismal como uma sepultura? Que pais depositariam lá os seus filhos?
O baptismo por imersão completa ajuda a tornar a imagem “sepulcral” mais clara. Morremos quando nos submergimos tempo suficiente, e mesmo a submersão por pouco tempo pode causar medo ansiedade. Os padres que baptizam por imersão completa têm cuidado para evitar isso mesmo, e só submergem o bebé, ou o adulto, por poucos instantes.
Mas quando São Paulo descreve as águas do baptismo como uma sepultura sabe do que fala. Não era raro as pessoas morreram afogadas. Mesmo ele viveu o perigo de um naufrágio. Quando o Papa Francisco se referia ao Mediterrâneo como um vasto “cemitério” para migrantes, estava a evocar uma imagem bíblica antiga.
A reacção perante as cheias do Rio Guadalupe ilustra a ideia actualmente dominante, de que as águas devem ser domesticadas, controladas. Deixando de parte a questão do que poderia ter sido feito melhor, e por quem, a premissa é de que podemos controlar as águas, ou pelo menos assim pensamos.
Isto tem implicações sobre o baptismo como caminho ordinário para a salvação. Se, na ordem natural, podemos e devemos salvar-nos a nós mesmos, então devemos continuar a rezar o Salmo 69? Se podemos domesticar as águas naturais, precisamos que nos salvem dos perigos sobrenaturais?

A leitura de hoje do Antigo Testamento introduz a figura de Moisés (Êxodo 2, 1-15). Uma mulher levita empurra o seu filho de três meses num cesto de papiro, deixando-o entre as plantas na margem do rio. A mãe teria escolhido um local seguro, onde o cesto fosse facilmente encontrado, em vez de o deixar ir com a corrente forte. O desenho animado Príncipe do Egipto imagina algo bastante diferente, com o bebé a ser ameaçado por crocodilos e hipopótamos, e os remos dos navios do Faraó. Os argumentistas sabiam bem que as águas bíblicas estavam cheias de perigos.
O cesto com o bebé acaba por ser encontrado pela filha do Faraó quando esta se vai banhar, e ela decide adoptar o bebé, chamando-o “Moisés”, porque, explica, “o retirei das águas”.
Aquele que é retirado das águas é aquele que foi lançado em primeiro lugar à água; aquele que emerge para a vida é o primeiro a ter sido sujeitado à morte; aquele que recebe a salvação é o primeiro a ter sido imerso na morte do baptismo. Aquele que ascende à direita do Pai é o que primeiro desceu dos Céus.
Moisés é um tipo de Cristo, como se vê muito bem nas imagens nas paredes laterais da Capela Sistina, pintadas pelos grandes mestres do Renascimento. De um lado os painéis mostram a vida de Moisés, do outro a de Cristo. Esta série começa com o baptismo de Cristo por João, no Rio Jordão. Jesus também foi “retirado das águas”.
Moisés levaria depois os filhos de Israel através das águas do Mar Vermelho, o que na Capela Sistina é colocado em parelelo com os apóstolos a formarem um novo povo. O Antigo Egipto foi engolido pelas águas; o Antigo Israel foi salvo nas águas; a Igreja Antiga nasceu das águas. Das águas da morte surge a vida eterna.
A domesticação das águas é parte do cuidado do homem pela criação. O Espírito move-se sobre as águas primordiais e o homem participa da continuidade dessa obra criativa. Tomara que esse cuidado tivesse ajudado a salvar vidas ao longo das margens do Guadalupe!
A domesticação das águas esconde o seu sentido original bíblico, que os israelitas antigos conheciam, bem como os apóstolos, incluindo São Pedro – o primeiro de entre eles, que caminhou sobre o reino da morte – e como todas as gerações sabiam, até há pouco tempo.
Será que o drama radical das águas pode sobreviver à era da domesticação? Será possível continuarmos a rezar com o salmista?
Estendeu do alto a sua mão e me segurou,
retirou-me das águas caudalosas.
Conduziu-me a um lugar espaçoso,
libertou-me, porque me ama.
(Salmo 18:16, 19)
Raymond J. de Souza é um padre canadiano. Para além de ser membro da Cardus, é comentador de assuntos católicos.
(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 15 de Julho de 2025 em The Catholic Thing)
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