
Permitam-me ir directo ao assunto. O novo livro de Leigh Snead, Infertile but Fruitful [Infértil mas Fecunda], é um dos mais belos testemunhos pessoais que li na última década. É uma história “simples” no melhor dos sentidos: concisa, íntima, totalmente franca e memorável. Tocou direta e magnificamente a realidade da minha própria família, como tocará a de muitas outras. Voltarei ao livro num instante. Mas primeiro, um pouco de enquadramento.
De forma geral, a taxa de fertilidade de uma cultura revela algo sobre o seu carácter. Sugere também o seu estado de saúde. Gerar e educar filhos é um assunto sério. Exige sacrifícios. Mas, para qualquer pessoa de espírito generoso, também cria amor e esperança, e confiança num futuro com sentido, porque o instinto de “sede fecundos e multiplicai-vos” (Génesis 1:28, 9:1) é intrínseco à espécie humana.
Rejeitar isto tem consequências. E aqui está um exemplo. A taxa mínima de substituição de uma população é de 2,1 filhos por mulher durante a vida. A taxa de fertilidade total na Europa Ocidental rondava os 2,66 no início da década de 1960. Tinha caído para 1,46 no final dos anos 90. Continuou a descer até ao mínimo histórico de 1,34 em 2024. Trata-se de um declínio da fertilidade de 50 por cento em apenas duas gerações. Os europeus muçulmanos tendem a ter uma fertilidade média algo superior, mas a história geral é, ainda assim, a de um colapso maciço e sustentado da natalidade em todo o continente.
Quanto aos Estados Unidos: no início da década de 1960, a taxa de fertilidade rondava os 3,5, significativamente superior à da Europa na altura, porque o Baby Boom americano do pós-guerra foi maior e durou mais tempo. Mas a queda subsequente foi mais acentuada. A taxa de fertilidade total dos EUA encolheu para 1,59 em 2024. Assim, o declínio da fertilidade ao longo das últimas seis décadas é, na verdade, maior para os Estados Unidos do que para a Europa em termos absolutos.
Porquê este colapso? Os fatores são bastante óbvios: acesso fácil à contracepção e ao aborto; mais mulheres no ensino superior e no mercado de trabalho; o aumento do custo de vida; uma economia movida pelo consumo; e o declínio da crença religiosa.
O Cristianismo encoraja fortemente os casamentos permanentes e as famílias numerosas. À medida que a Europa se secularizou, essa pressão moral desapareceu. Hoje, a maioria das crianças cresce vendo as famílias pequenas como a norma. A sua própria fertilidade ajusta-se em conformidade. O que torna esta realidade tão difícil de reverter é o facto de uma modernidade enraizada no “eu” soberano e nos seus apetites materiais ter ensinado tantos de nós a valorizar estas características.
O resultado é a perda de sentido de uma cultura, uma população envelhecida com custos de saúde crescentes, sustentada por uma força de trabalho em declínio. A resposta económica necessária ao declínio demográfico é a imigração, preenchendo a lacuna laboral com pessoas em idade ativa provenientes de regiões com maior fertilidade. Mas o tipo de imigração em massa necessária para compensar a baixa fertilidade gera tipicamente uma reação política amarga. Isto cria uma fricção constante entre a necessidade económica e a ansiedade popular de base que tem impactado a vida de quase todas as nações ocidentais.
Mas chega de dados sociais. Como é que tudo isto se relaciona com Infertile but Fruitful?
Uma das respostas (maravilhosamente) irónicas a tudo o que foi dito acima é o número de mulheres hoje, muitas delas crentes, que escolhem deliberadamente ter famílias numerosas. Mais uma vez, a fertilidade — o anseio de fazer parte do trazer nova vida ao mundo — é inerente ao ser humano. Isso pode significar filhos, ou uma vida celibatária de serviço aos outros.

Mas todos, sem exceção, têm a necessidade de ser fecundos, e ignorar essa necessidade deforma o coração. A minha filha é mãe de sete. Para a minha esposa Suann, alguns dos anos mais difíceis do nosso casamento foram aqueles primeiros oito ou dez em que não conseguia conceber ou sofreu vários abortos espontâneos; isto, enquanto as amigas davam à luz criança após criança.
Os maridos podem dar amor e apoio, mas nunca conseguirão compreender totalmente o sofrimento e a sensação de perda sentidos a um nível celular pela mulher que anseia gerar um filho, mas não consegue. Especialmente quando a incapacidade de conceber se revela permanente.
O que nos traz de volta ao livro comovente e belo de Leigh Snead. Snead escreve sem pretensões ou falsa piedade. O seu estilo é simples, íntimo e direto, e tanto mais eficaz por causa disso. Infertile but Fruitful: Finding Fulfillment When You Can’t Conceive [Infértil mas Fecunda: Encontrar um sentido quando não se consegue conceber] é uma espécie de confissão. É a crónica de uma mulher dotada que assume que ter um filho será fácil, mas que, em vez disso, cresce — ano após ano, falha após falha — mais comprometida com o seu casamento e com a sua fé, precisamente por causa daquilo que quer, mas parece nunca conseguir alcançar.
Ao longo dos anos, Snead e o seu marido tentam tudo para conceber, desde o Planeamento Familiar Natural até assistência médica profissional. Descobrem que muito desta última é moralmente inaceitável — nomeadamente a fertilização in vitro — e, portanto, não pode ser prosseguida. Mas mesmo a ajuda médica lícita revela-se infrutífera.
Pior, não se consegue encontrar nenhuma razão biológica clara para o problema. Como resultado, um dos pontos fortes da história da autora é a secção muito prática de “lições aprendidas” com que termina cada capítulo; simplificando, as coisas que a experiência lhe ensinou e o conselho que oferece a outras mulheres que percorrem a mesma “via-sacra” difícil e incerta.
Ela escreve que:
À medida que a ideia de que eu poderia realmente nunca vir a engravidar se instalou na minha imaginação, a cruz da infertilidade destacou-se nitidamente da história que eu andava a contar a mim mesma sobre como a minha vida, sobre como a minha maternidade, deveria ser. A infertilidade era a minha cruz. E com o mesmo fervor com que tinha estado a rezar a Deus para me dar um bebé, encontrei de algum modo o dom de uma graça extraordinária, e tomei-a nos braços… e as nossas vidas inteiras passaram a centrar-se mais plenamente em Cristo do que na gravidez.
Esquecemo-nos com demasiada facilidade de que Deus nunca abandona a alma fiel. Hoje, Snead é muito uma mãe; mãe de quatro filhos queridos, todos adotados, dois dos quais com necessidades especiais. Portanto, a lição no conto da autora é simplesmente esta: a fertilidade é do espírito ainda mais do que da carne. É a vontade e a coragem de amar.
Francis X. Maier é investigador senior em Estudos católicos no Ethics and Public Policy Center. O seu mais recente livro é True Confessions: Voices of Faith from a Life in the Church .
Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 11 de Março de 2026)
© 2026 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org
The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.