
No que toca às alegrias das famílias numerosas, existe mais do que um oceano a separar a Europa dos Estados Unidos. Foi isto que descobri quando comecei a viajar regularmente entre os dois continentes para dar palestras sobre o tema da família.
Um esclarecimento prévio: acredito que a família é a coisa mais grandiosa que existe e, por família, refiro-me a uma família numerosa. Eu e a minha mulher fomos abençoados com seis filhos, e essa experiência transformou a minha vida; foi o melhor que já me aconteceu (além da minha fé, claro). Por isso, naturalmente, gosto de falar sobre ter muitos filhos.
Não será surpresa saber que estar casado de forma feliz e ter um rancho de filhos não é a regra na velha Europa. As pessoas ficam frequentemente chocadas quando menciono seis miúdos. É, literalmente, algo inaudito. É considerado irrazoável mesmo entre as famílias de mentalidade mais tradicional.
Em Itália, onde vivi durante dez anos até recentemente, levei três anos a conduzir pelas ruas de Roma até ver uma mulher grávida a atravessar a estrada. E este supostamente era o país católico, a terra dos bambini.
Mas algo muito interessante aconteceu há uns anos, quando atravessei o Atlântico para falar num evento nos Estados Unidos. Antes da palestra, fui convidado para um jantar onde me apresentaram a muitos jovens católicos. Falei do meu casamento e dos meus seis filhos. Ninguém ficou chocado. Aliás, duas jovens que me cumprimentaram disseram-me que tinham sete e oito filhos, respetivamente, e como era fantástico ter uma família numerosa.
Olharam para mim com algo próximo da piedade, e quase se conseguia ouvi-las a pensar: “Bem, talvez o Senhor lhe conceda mais alguns filhos”. E tenho de admitir que, nesse momento, fui eu quem ficou ligeiramente chocado.
O curioso é que estas não eram famílias super abastadas. Não podiam “facilmente sustentar” tantos filhos. Pelo contrário, fiquei com a impressão de que eram católicos com uma convicção profunda de que as famílias numerosas são o que Deus ama e incentiva num matrimónio.
À medida que estes testemunhos se multiplicavam, descobri todo um mundo que seria muito difícil de encontrar na Europa Ocidental. Encontrei dezenas de famílias (com muitos filhos) em filas para palestras sobre a fé e, especialmente, sobre o Beato Imperador Carlos, o último governante da minha família Habsburg. Ele, claro, teve oito filhos e foi um pilar da fé. Curiosamente, parece ser uma figura muito inspiradora para um número considerável de pessoas nos Estados Unidos.
Foi esta experiência (e a nossa própria história familiar) que me levou a escrever o meu segundo livro, Building a Wholesome Family in a Broken World (Construir uma Família Saudável num Mundo Destruído), que é um forte incentivo a ter famílias numerosas.
Sim, estou bem ciente de que as famílias numerosas não são a norma, mesmo nos Estados Unidos. Mas, na América, parece pelo menos possível falar sobre esse assunto. Em grande parte da Europa, isso é quase impensável.
E, por vezes, preocupa-me o que acontecerá quando o meu livro for traduzido para, digamos, alemão. O que os americanos conseguem compreender ou, pelo menos, respeitar, pode levar a uma hostilidade aberta no mundo de língua alemã: uma família numerosa não é razoável, não é financeiramente viável, mata a liberdade pessoal, prende as mulheres à cozinha e faz recuar a roda do progresso (ou é má para o ambiente).
Num tal clima (sem trocadilho pretendido), mesmo alguém tão entusiasta como eu tem de escolher as palavras com cuidado ao falar sobre a família.

O pior é que muitos pastores católicos (e, infelizmente, também alguns bispos) alinham no jogo secular. Incentivam os casais a não terem filhos demasiado cedo, a irem com calma, a “aproveitarem a companhia um do outro”, a adiarem os filhos até terem condições financeiras, etc.
Embora compreenda que estes líderes católicos receiem ser rotulados de “radicais”, deveriam considerar as suas responsabilidades. Porque — e esta é a minha tese principal — acredito que ninguém embarca totalmente na aventura de ter uma família numerosa sem fé.
E se até os seus líderes espirituais os desencorajam, onde irão então buscar coragem?
A Hungria, o meu país, tenta há cerca de quinze anos incentivar os casais a terem mais filhos. O governo de Viktor Orbán tem implementado medidas como isenções fiscais, subsídios estatais e, de um modo geral, um clima mais favorável às crianças para travar a catastrófica queda livre demográfica. Quando se aterra no aeroporto de Budapeste, veem-se cartazes que dizem: “Hungria – Um País Amigo das Famílias”. E sim, há alguns bons resultados, mas é um trabalho árduo.
É por isto que precisamos que os nossos pastores se cheguem à frente. Aqui fica uma sugestão. Procurem na internet e cliquem na belíssima série de alocuções do Papa Pio XII, “Alocução à Associação Italiana de Famílias Numerosas”, da década de 1950. E deixem que elas vos inspirem a encorajar os jovens casais a dizerem “sim” aos filhos.
A muitos filhos.
É o maior presente que os cônjuges podem dar um ao outro, aos seus filhos e à sociedade.
Eduard Habsburg foi durante dez anos embaixador da Hungria junto da Santa Sé. Atualmente, é membro distinto do Instituto Danúbio. É também embaixador itinerante para a Família, as Igrejas e a Vida. Tem seis filhos e dois netos com a sua esposa. Eduard é uma personalidade mediática ativa e publicou vários livros.
(Publicado pela primeira vez no sábado, 21 de Fevereiro de 2026 em The Catholic Thing)
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