
Ao longo dos últimos anos o regime iraniano tem enfrentado várias crises, mas tem-se aguentado. Neste momento parece estar no seu estado mais periclitante, mas ainda não é certo que será desta que os iranianos alcançam a liberdade que tanto merecem e desejam.
Vale a pena, contudo, pensar nas eventuais consequências para o mundo da queda do regime do Irão, sendo que as consequências internas dependem de tantos factores imponderáveis – nomeadamente da existência de uma intervenção externa ou não, e em que moldes – que não me é possível especular.
Recordemos que o Irão é, para além de uma potência importante no Médio Oriente, a única potência xiita do mundo. Os xiitas podem ser uma minoria do mundo muçulmano, mas desempenham um papel importante em muitos países, com o apoio do Irão. Assim, a queda de um regime teocrático e eventual substituição por outro menos interessado em usar a religião como base de relacionamento e alianças, terá desde logo graves consequências para o Iraque, país que passou a estar na esfera de influência do Irão depois da queda do regime de Saddam Hussein e para algumas das facções palestinianas mais agressivas, que dependem do apoio financeiro e militar de Teerão. O mesmo se aplica ao Líbano, onde o Hezbollah deixaria de poder contar com o mecenas e podia perder a sua posição hegemónica na política interna. Também os Houthis do Iémen ficariam sem grandes aliados.
No imediato, ganharia Israel com um Hamas e Hezbollah enfraquecidos, ganhariam os sunitas no Iraque, os sunitas e cristãos no Líbano; os sunitas no Iémen e, por consequência, a Arábia Saudita.
A nível mais alargado, o fim do regime do Irão seria desastroso para a Rússia, que conta com o apoio militar dos aiatolas, nomeadamente na forma de drones shahed com que fustiga as cidades ucranianas. Aliás, é muito interessante reparar que por mais que por vezes pareça estar no bolso de Putin, Donald Trump parece apostado em isolar a Rússia e começo a pensar que os fracassos das negociações para a paz na Ucrânia podem fazer parte de uma estratégia mais ampla, de desgaste militar e económico da Rússia enquanto cada um dos seus amigos no mundo vai caindo do poder.
Importa recordar que embora o Irão tenha um país teocrático, talvez ninguém tenha feito mais para desgastar a crença e prática religiosa dos iranianos que o próprio regime. É o que dá ter a política tão intimamente ligada à religião, quando o povo se ergue para rejeitar a primeira, acaba por rejeitar também a segunda. Há 13 anos um especialista na região dizia-me que já há mais cristãos a praticar a sua religião ao domingo em Teerão do que muçulmanos nas mesquitas à sexta-feira na mesma cidade. Exagero? Não sei…
Existem dois tipos de cristãos no Irão. Há as igrejas tradicionais, que operam com alguma liberdade e que incluem a Igreja Arménia, a Igreja Caldeia e a Igreja Católica de rito latino. O arcebispo latino de Teerão é o franciscano belga Dominique Joseph Mathieu, que foi feito cardeal pelo Papa Francisco, o que lhe dá uma voz e influência maior do que a dimensão pequena da sua comunidade.
Depois há uma miríade de igrejas evangélicas protestantes, proibidas, que são fortemente perseguidas, mas que continuam a crescer a um ritmo alucinante, na medida em que cada vez mais pessoas perdem a fé na religião oficial, tão próxima do Estado repressor.
É certo que o Irão não é um país uniforme e Teerão não é Qom, nem é o mundo rural, onde o Islão Xiita estará mais fortemente implantado, mas se o regime cair é muito natural que o próximo seja, pelo menos na prática, secular e que os iranianos, povo de uma cultura milenar desenvolvidíssima possam voltar a desempenhar um papel positivo no mundo.