
Como todos, dei por mim horrorizado e estupefacto com as dimensões e consequências das tempestades e depressões que se abateram sobre Portugal nas últimas semanas.
Enquanto dou graças a Deus porque a minha família não foi directamente afectada, olho com um sentimento de impotência para os que perderam tudo, sabendo que pouco posso fazer para os ajudar.
Estes tempos levam-nos a perceber que há forças que não conseguimos domesticar. A água, por exemplo. A nossa sociedade passou a vê-la como fonte de prazer e diversão. Até as ondas do mar, outrora temíveis, são agora palco para bater recordes. Afunilámos os rios, construímos barragens para reconquistar terra para a agricultura ou, tantas vezes, para a construção, pensando que os rios e as águas se deixariam agrilhoar para sempre. Mas quando se libertam, como sempre acontece, vem a desgraça. Olhamos para as casas destruídas e achamos injusto e incrível, mas em muitos casos o rio está simplesmente a voltar para o lugar onde já esteve, a seguir as leis da natureza e da física. Nós é que não nos lembrámos, porque perdemos essa memória histórica.
E isto vem a propósito de algo que me tem assolado nos últimos tempos, enquanto observo a actualidade política e social, em Portugal e não só. E dou por mim com uma certeza. Há uma tempestade maior no horizonte. E também aqui é a falta de memória histórica que nos vai deixar mais expostos.
Deixem-me explicar. A última guerra na Europa ocidental foi há mais de 80 anos, e nem sequer afectou Portugal. O tecido vivo da Europa – a nossa Europa, pelo menos – já não sabe o que é a guerra. E isso é uma coisa boa, claro. Estas décadas de paz são inéditas na Europa, um tesouro a valorizar. O problema não está em não termos vivido uma guerra, o problema é termos esquecido a guerra, termos deixado cair a experiência da guerra da memória colectiva, tal como deixámos cair o conhecimento do fluxo natural dos rios, da chuva e das tempestades.
E como nos esquecemos, pensámos que tínhamos domesticado a política, pensámos que tínhamos controlado os sentimentos de pertença, as aspirações tribais, o medo do outro e a inveja mesquinha de quem tem, ou parece ter, mais do que nós. Mas esses sentimentos, como os rios, não se deixam domesticar, e a pior maneira de lidar com eles é fingir que não existem.
Agora estão a voltar e não sabemos o que fazer. E porque não nos lembramos o que custa ter de racionar açúcar e manteiga ou ter de enterrar os nossos filhos desmembrados, vamo-nos deixando seduzir pelos vendedores de banha da cobra, os semeadores de ventos que gostam de ser fotografados ajoelhados diante do altar, mas que promovem um culto da identidade nacional que é absolutamente pagão.
Não pensemos que a culpa é só destes. É também dos que durante décadas se entretiveram a desmantelar e a atacar a família, acreditando que uma vez libertados das amarras e obrigações tradicionais, os homens despertariam para a fraternidade universal, para a solidariedade de classes e que se empenhariam na construção da grande utopia.
O resultado foi um cenário de desolação – milhões de órfãos em tempo de paz, crescendo sem se conhecer a si mesmos, porque só nos conhecemos verdadeiramente crescendo numa família, rodeados de pessoas que nos amam e nos cuidam independentemente das nossas falhas e fraquezas, ou sobretudo por causa delas.
E estes milhões de órfãos, sem rede, sem autoestima, sem um compasso moral e, sobretudo, sem memória histórica, são terreno fértil para a ressurreição de velhas ideias, velhas paixões e velhos ódios: “Segue-me que eu serei um pai para ti; ama a tua pátria acima de tudo – acima do próprio amor – e protege-a do outro, porque é invasor e vem roubar a tua mulher e o teu emprego”.
Há uma tempestade maior no horizonte, e quando se abater sobre nos fará a Kirsten parecer uma brincadeira de criança.
Há algo a fazer? Há.
Cultivem a vossa família. Tenham filhos, mas acima de tudo estejam lá para eles, numa só casa, onde não ressoa constantemente ódio e desprezo pela outra metade da sua composição genética; não deleguem em terceiros a responsabilidade pela sua educação; não deleguem nos telemóveis e na televisão a construção da sua rede de valores; ensinem-lhes a amar, amando-os mas, sobretudo, dando a conhecer que o verdadeiro amor é sacrificial; ensinem-lhes que o auge do poder não é conseguir matar, mas dar a vida pelo outro; que se lembrem sempre que o messias não vem com discursos arrebatadores e promessas de reconquista, mas que é manso e que por amor se deixou pendurar nu numa cruz.
Será o suficiente para travar a tempestade? Duvido. Mas é a eles que caberá a reconstrução.