
A Ilha de Moçambique é um ponto minúsculo no Google Maps, um pequeno pedaço de terra a cerca de três quilómetros da costa da África Oriental. Hoje, é um local tranquilo, Património Mundial da UNESCO. É também é uma atracção para turistas aventureiros. Uma das razões é a sua beleza, a outra é a sua história. Há quinhentos anos, foi um importante e fortemente fortificado centro administrativo e comercial português. Situava-se a meio caminho entre a Europa e os territórios portugueses no Extremo Oriente, e por isso tinha enorme valor estratégico. Vi a ilha pela primeira vez no início da década de 1970, enquanto cobria as guerras coloniais portuguesas. Vista do continente, parecia o fim do mundo; uma amálgama exótica de pobreza e riqueza decadente a flutuar no horizonte.
Na altura, porém, não foi isso que despertou o meu interesse. Lembrei-me de um determinado santo. Quando eu era criança a minha família tinha um carinho especial pelas missões, e São Francisco Xavier passou sete meses na Ilha de Moçambique, de Agosto de 1541 a Março de 1542, a caminho da Índia. Dedicou-se a pregar, baptizar, ouvir confissões e a trabalhar entre os doentes e moribundos no hospital da ilha. É quase certo que tenha celebrado missa na Capela de Nossa Senhora do Baluarte. Construída em 1522 por marinheiros portugueses, que ainda existe, sendo a estrutura europeia mais antiga do hemisfério sul.
Mas chega de recordações e geografia. Porque é que refiro isto?
Porque há precisamente uma semana a Igreja assinalou a festa de São Francisco Xavier. Nascido em 1506 numa família nobre basca, atingiu a maturidade nos primeiros anos turbulentos da Reforma. Francisco estudou na Universidade de Paris e, inicialmente, resistiu a uma vocação religiosa, chegando mesmo a troçar da ideia. Mas o sarcasmo não durou. O seu amigo e colega de estudos, Inácio de Loyola, também ele basco, acabou por convencê-lo. Uma vez persuadido, entregou-se por completo. Francisco viria a ser cofundador da Companhia de Jesus e um dos sete jesuítas originais. Hoje é amplamente reconhecido como o maior missionário cristão desde São Paulo.
Os factos confirmam exatamente essa afirmação. Era um homem de espantosa resistência e zelo. Em pouco mais de uma década de ministério incansável, numa época em que “comunicação social” significava contacto direto e presencial, Francisco Xavier baptizou entre 30 000 e 100 000 pessoas na Índia, no Sudeste Asiático e no Japão. E não se limitava a baptizar e partir. Assegurava apoio pastoral contínuo às comunidades que criava, adaptava a evangelização às necessidades e culturas locais e esforçava-se por formar um clero nativo instruído.
Morreu de febre e exaustão em 1552, na ilha de Sanchão, ao largo da costa da China, à espera de autorização para entrar e evangelizar o continente. Tinha apenas 46 anos. Tendo partido de Lisboa ao serviço das missões em Abril de 1541, nunca regressou à Europa. Foi canonizado em 1622. E, em 1927, o Papa Pio XI nomeou-o copadroeiro das missões estrangeiras, juntamente com Santa Teresinha do Menino Jesus.

O Advento prepara-nos para o nascimento de Jesus e para a sua Segunda Vinda no fim dos tempos. Recordamos e celebramos estas coisas todos os anos, nas semanas que antecedem o Natal. Se Jesus Cristo é quem disse ser — o Filho de Deus; a Palavra de Deus feita carne para nossa salvação — então o seu nascimento é o acontecimento decisivo da história humana; a verdade central da criação. Nada é mais importante.
Isto faz de Francisco Xavier o santo perfeito para esta época. Ele acreditou em Jesus Cristo sem reservas e entregou-se totalmente à Igreja e à sua missão, sem olhar a sacrifícios. Para citar a Epístola de São Tiago, Francisco Xavier foi um cumpridor da palavra de Deus e não apenas um ouvinte. E nós, cristãos, temos a mesma vocação. Poucos de nós poderão ser chamados às missões estrangeiras; mas todos somos chamados à missão nas circunstâncias concretas em que vivemos aqui e agora. A missão faz parte da identidade cristã.
O que nos leva a uma reflexão final.
Enquanto lia recentemente um livro sobre “cristãos culturais” ao longo dos séculos, o seguinte trecho destacou-se com especial força:
Em vez de pensarmos no cristianismo cultural como uma excepção, um fenómeno que só poderia florescer em condições muito específicas, talvez devêssemos vê-lo como a norma, um resultado natural do estado decaído e pecador da humanidade. […] E, sendo tantos de nós também cristãos culturais, tentar consertar o mundo através da política, ou apenas por meio de políticas específicas sobre, por exemplo, o matrimónio, nunca funcionará. Em vez disso, precisamos de procurar uma conversão e santificação genuínas.
É bem verdade! Desde a era apostólica até hoje, os cristãos enfrentam sempre a tarefa de ser fermento bom e, assim, transformar um mundo ferido. Nunca existiu uma “idade de ouro” cristã pura, porque todos nós lutamos contra os nossos pecados. Mas, juntamente com o mandato de Cristo para fazermos discípulos de todas as nações, vem a tentação de procurar uma zona de conforto na vida quotidiana; de ser respeitados pelos líderes da cultura; de encaixar e evitar conflitos; de comprometer-nos com o mundo de modos que lentamente impedem a “conversão e santificação genuínas”.
E eis um exemplo, facilmente ignorado: o livro que mencionei acima, escrito por um historiador cristão, para um público cristão, e publicado por uma editora cristã, utiliza repetidamente EC (“Era Comum”) e AEC (“Antes da Era Comum”) na datação de eventos e tendências, em vez de A.D. (“Anno Domini”) e A.C. (“Antes de Cristo”).
É um detalhe mínimo, mas revelador. As normas de uma profissão, incluindo a história, refletem as suas crenças e pretensões subjacentes. Se Jesus Cristo é realmente o Filho de Deus, a fonte da redenção e da vida eterna da humanidade, então excluí-lo da forma como organizamos e registamos o recurso humano mais precioso — o tempo — parece uma escolha curiosa.
O que pensaria um homem como Francisco Xavier sobre isto? O que diria de nós? Que estas sejam perguntas para reflexão neste Advento, no ano do Senhor de 2025.
Francis X. Maier é investigador senior em Estudos católicos no Ethics and Public Policy Center. O seu mais recente livro é True Confessions: Voices of Faith from a Life in the Church .
Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 3 de Dezembro de 2025)
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