
O Papa Leão viajou pela Turquia e pelo Líbano, fazendo aquilo que os papas fazem nestas ocasiões: visitar líderes religiosos e políticos, assinar acordos para um maior diálogo, apelar à paz e ao respeito pela dignidade humana. Tudo coisas boas, e este papa fá-las com notável dignidade. Mas não são a coisa principal. E sem a coisa principal, as outras têm perspectivas bastante limitadas. A coisa principal, a razão da viagem desde o início, foi e é a verdade confirmada no Concílio de Niceia (hoje Iznik, Turquia) em 325 AD: que Jesus não foi apenas um grande homem – como até muitos seculares hoje admitem – mas o Filho eterno de Deus e o Salvador do mundo.
Na verdade, embora Leão tenha falado vagamente de algumas polémicas teológicas como já não sendo relevantes, também fez questão de alertar, na Turquia, que entre os nossos muitos problemas pós-modernos “há também outro desafio, a que podemos chamar ‘novo arianismo’, presente na cultura actual e por vezes até entre crentes. Isto acontece quando Jesus é admirado apenas num plano humano, talvez até com respeito religioso, mas sem ser verdadeiramente reconhecido como o Deus vivo e verdadeiro no meio de nós.” O arianismo pode parecer uma daquelas polémicas teológicas obscuras que já não interessam a ninguém. Mas em Niceia, exactamente há 1700 anos, era um tema quente porque o arianismo estava muito difundido. E continuou assim durante séculos. E agora, novamente.
Tudo isto é bem conhecido de quem estudou a história da Igreja primitiva. Mas muitos não percebem até que ponto o arianismo estava realmente difundido. Quando os Vândalos invadiram o Norte de África, por altura da morte de Santo Agostinho (430 d.C.), vieram não apenas como “bárbaros”, mas como “cristãos” arianos. O próprio Império Romano “caiu” em 476 AD, quando Odoacro, um “bárbaro” godo, depôs o último imperador do Ocidente. As causas da queda de Roma são muito debatidas, mas não se tratou de uma incursão pagã: Odoacro era um oficial formado no Exército Romano, com ligações aos imperadores romanos do Oriente – e embora tolerante para com os católicos, era ariano.
O arianismo atraía soldados, que viam Jesus não apenas como santo, mas – pela sua coragem perante a tortura e a morte – como heroico. Para muitos hoje, é uma visão estranha. Durante séculos, o Ocidente tendeu a transformar Jesus numa figura “simpática”, afectuosa e terna. Mas talvez aqueles soldados tenham visto algo n’Ele de que também nós poderíamos beneficiar, especialmente numa altura em que os cristãos são perseguidos por todo o mundo.
A ênfase de Leão em Jesus como “o Deus vivo entre nós” também se liga aos seus alertas sobre outra heresia. Como agostiniano, é muito sensível ao “pelagianismo” contemporâneo, que o grande bispo de Hipona combateu cerca de um século depois de Niceia. Pelágio era um teólogo celta-britânico que, ao que se pensava – embora estudiosos recentes o discutam – acreditava que somos capazes de seguir os preceitos da lei sem necessidade da graça divina.
Já vi Pelágio descrito em alguns relatos populares como bastante razoável. Há regras. Somos seres racionais. Podemos segui-las. O que, claro, ignora a nossa experiência diária, para não falar de São Paulo: “a lei é boa. (…) mas vejo nos meus membros outro princípio que luta contra a lei da minha mente e me torna prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros.” (Romanos 17:16 e 23) Agostinho, o Doutor da Graça, combateu o pelagianismo com toda a força e deixou um grande legado ao mostrar o quanto dependemos de Deus – e não da nossa própria vontade.

O Papa Leão recordou também esta corrente principal da tradição:
“o maior erro que podemos cometer como cristãos é, nas palavras de Santo Agostinho, ‘afirmar que a graça de Cristo consiste no seu exemplo e não no dom da sua pessoa’ (Contra Iulianum opus imperfectum, II, 146). Quantas vezes, mesmo num passado não muito distante, esquecemos esta verdade e apresentámos a vida cristã sobretudo como um conjunto de regras a cumprir, substituindo a maravilhosa experiência de encontrar Jesus – Deus que Se dá a nós – por uma religião moralista, pesada e pouco apelativa que, de certo modo, é impossível de viver no quotidiano.”
Esta visão agostiniana clássica não deve ser entendida como uma negação das regras morais. Pelo contrário, coloca a graça e o amor de Deus em primeiro lugar, que são as realidades profundas que tornam possível vivermos a vida cristã. O Papa Bento expressou-o de forma incisiva: “Ser cristão não é o resultado de uma decisão ética ou de uma ideia elevada, mas o encontro com um acontecimento, com uma pessoa, que dá à vida um novo horizonte e uma orientação decisiva.”
Um aspecto notável da peregrinação do Papa Leão é a sua decisão de não rezar na Mesquita Azul, em Istambul, algo que os Papas Bento e Francisco fizeram. Descalçou-se, visitou “como turista”, mas manteve alguma distância do Islão. E com razão. A par do neo-arianismo, que nega a divindade de Cristo, e do neo-pelagianismo, que implica que podemos salvar-nos sozinhos, surgiu no mundo moderno – até na Igreja – um falso universalismo e indiferentismo: “Deus quer a multiplicidade de religiões”, como disse o Papa Francisco num momento infeliz.
A aparente resistência de Leão a isso, na Mesquita Azul, é um gesto pequeno, sem dúvida. Mas vale a pena notá-lo, porque é em tais pequenos detalhes – e não nas habituais “questões” mundanas que interessam aos media generalistas – que vislumbramos a natureza necessariamente contra-cultural da Fé hoje.
Na verdade, precisamos de mais disso. É delicado acreditar na importância radical da Fé, por um lado, e, por outro, falar em público como se a paz e a fraternidade resultassem do diálogo e não da única verdadeira fonte da caridade: Jesus Cristo. Leão, como os seus antecessores, fala muitas vezes a linguagem pública habitual. Mas seria bom que, neste momento da história, se tornasse ainda mais abertamente agostiniano, precisamente acerca da diferença que Cristo faz até nas coisas públicas.
Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press.
(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 2 de Dezembro de 2025 em The Catholic Thing)
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