
Todos os dias encontramos artigos a alertar para os perigos futuros da Inteligência Artificial. Mas será que a aprendizagem de máquinas é realmente uma ameaça? Não. Como o psiquiatra Karl Stern nos avisou há 71 anos em “A terceira revolução”, o cerne do problema é que as elites intelectuais passaram mais de um século a abraçar o materialismo: cientismo über alles.
Stern, um psiquiatra judeu que fugiu da Alemanha Nazi e se converteu ao catolicismo, diagnosticou esta condição com uma clareza profética. Ele avisou que quando reduzimos as pessoas a mecanismos, abrimos a porta à desumanização em todas as suas formas. O debate sobre a Inteligência Artificial é apenas o capítulo mais recete de uma história que Stern testemunhou em primeira mão: na Alemanha Nazi a ideologia materialista reduziu os seres humanos a espécimenes numa teoria biológica racista, ignorando a sua humanidade.
Stern identificou o erro fundamental: a ciência opera legitimamente no plano mensurável, material. Mas quando afirma que este é o único plano, viola a sua própria lógica. Consideremos a famosa experiência de Stern. Imaginem que se congrega uma equipa de pesquisa para estudar a Nona Sinfonia de Beethoven. Os físicos analisam as ondas, intensidades e frequências do som; os sociólogos investigam a escolha do “Hino da Alegria” de Schiller no clima político pós-napoleónico; os neurologistas usam ressonâncias magnéticas para mapear as regiões do cérebro para ver quais é que são estimuladas quando o sujeito ouve as diferentes partes da música.
Porém, como observa Stern, “por mais dados que a nossa equipa de cientistas possa compilar, não consegue ‘explicar’ uma única nota da experiência musical a que chamamos Nona Sinfonia. O problema não é escassez de dados, o problema é de categoria. A experiência estética, o sentido e a beleza existem num plano a que as medidas científicas não conseguem aceder”.
Não se trata de uma falha da ciência. A ciência não pode lidar com toda a realidade. Como escreveu Stern: “o amor e o ódio, a alegria e o luto não podem ser quantificados”. Podemos mapear cada neurónio e medir cada hormona, cada impulso elétrico, e não seremos capazes de explicar o amor por um filho pródigo.
Esta mesma limitação surge em cada um dos domínios que mais interessam à vida humana. A ciência pode mapear os processos neurológicos durante as tomadas de decisões morais, mas não pode explicar a própria da obrigação moral. Porque é que havemos de nos sacrificar pelos outros se somos apenas colecções de átomos a seguir as leis da física?
Fundamentalmente, a ciência não consegue responder aos “porquês” do propósito e do sentido. É excelente a descrever mecanismos – i.e. como é que as coisas funcionam. Mas não consegue responder a questões teleológicas – porque é que as coisas existem, qual é o seu propósito.

Não estamos perante defeitos do método científico, mas sim de limites inerentes que revelam a verdadeira natureza da realidade: diferentes dimensões do ser, cada uma das quais requer o seu próprio modo de conhecimento. O erro catastrófico do cientismo é a afirmação de que só o plano material é real, e de que se a ciência não o consegue medir algo, essa coisa não existe.
A solução de Stern não passou por rejeitar a ciência, mas sim por tomá-la como um entendimento parcial da realidade. A tradição intelectual católica, inspirada em Aristóteles e Aquino, sempre insistiu naquilo a que Stern chama “planos múltiplos de ser”. A realidade material opera de acordo com leis físicas que a ciência pode estudar. Mas as pessoas existem simultaneamente em vários planos – corpo, alma e espírito unidos numa pessoa, uma pessoa feita à imagem de Deus.
Se Stern fosse vivo hoje dir-nos-ia como o seu entendimento da realidade se relaciona com os potenciais perigos da Inteligência Artificial. A consciência não pode ser alcançada através de algoritmos. E não é por falta de computadores suficientemente potentes, mas porque a consciência de si mesmo pertence a um plano não-material da realidade. Não há complexidade computacional suficiente para fazer a ponte entre a sintaxe e o sentido.
Tomemos o exemplo de algo concreto, como a recuperação de um adicto. Será que um chatbot de inteligência artificial poderia apadrinhar uma pessoa em recuperação? Tecnicamente, poderia ser programado para dizer todas as frases certas, mas nunca poderia ser um padrinho, porque o apadrinhamento requer aquilo que falta à Inteligência Artificial: empatia nascida de sofrimento partilhado, autoridade moral baseada na transformação pessoal, a presença de um curador ferido que acompanha outro. Um padrinho precisa de ter sofrido e ter encontrado graça – de ser “Deus com pele”.
O materialismo falha sempre que é aplicado a pessoas. Não se pode reduzir o amor à oxitocina, a beleza a padrões de preferência, a obrigação moral à vantagem evolucionária ou a dignidade humana às funções biológicas. As pessoas são almas incarnadas, criadas para a comunhão com um Deus pessoal, carregando a sua imagem.
Devemos usar a Inteligência Artificial para aquilo que melhor serve – como ferramenta para analisar dados, a automatização de tarefas rotineiras e a resolução de problemas computacionais. Mas devemos resistir a deixá-la invadir os domínios que pertencem às pessoas: a educação que forma carácter; o aconselhamento que sara almas; as relações que constituem a nossa humanidade.
E devemos reafirmar o vocabulário da alma. Numa era que reduz as pessoas a cérebros, a consciência ao processamento de informação e o amor à neuroquímica, precisamos de falar novamente de realidades espirituais: de almas criadas para a eternidade, de propósitos transcendentes, de comunhão com o divino. Não como poesia ou metáfora, mas como a verdade mais fundamental daquilo que somos.
Stern fugiu a um regime materialista que reduziu as pessoas a espécimenes e viveu tempo suficiente para ver outros a abraçar a mesma filosofia noutras formas. O pânico em torno da inteligência artificial é apenas a mais recente manifestação da condição que ele diagnosticou: a ideia de que as pessoas são mecanismos, que a consciência é computação, e que a ciência basta.
Não basta. Nunca bastou. E até recuperarmos aquilo que Stern sabia – que as pessoas existem em vários planos e que o materialismo destrói a dignidade humana – continuaremos a construir ferramentas cada vez melhores, à medida que perdemos a nossa humanidade.
Bob Kurland é um físico aposentado (bacharelado com honras pela Caltech em 1951; mestrado e doutorado pela Harvard em 1953 e 1956). Em 1995, tornou-se católico. Escreve “não tanto para discorrer com autoridade sobre assuntos que conheço, mas para conhecê-los melhor ao discorrer devotamente sobre eles”. (Santo Agostinho, “A Trindade” 1,8).
Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 16 de Novembro de 2025)
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