
O polímata Blaise Pascal escreveu no seu famoso “memorial” sobre a sua “noite de fogo”: “O Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob – não o deus dos filósofos e dos académicos”.
Compreende-se o desejo de não deixar transformar o Deus pessoal das Escrituras numa ideia abstracta. Mas há também boas razões para não criar uma oposição entre o Deus “dos filósofos” (sobretudo os do calibre de São Tomás de Aquino) e o Deus de Abraão, Isaac e Jacob.
Étienee Gilson notou que vivemos há tanto tempo com o conceito cristão de um Deus que é simultaneamente pessoal e a causa mais alta e fundamental de todas as coisas, que frequentemente não nos apercebemos que um dos grandes triunfos da reflexão filosófica cristã foi a unificação dos dois. “Depois de tantos séculos de pensamento cristão, tornou-se extremamente difícil para nós imaginar um mundo em que os deuses não são a realidade mais alta, enquanto que a coisa que é mais supremamente real no mundo não é um deus. Mas é um facto, porém, que para Platão os deuses eram inferiores às Ideias.”
O problema, porém, é que “uma Ideia não é uma pessoa; nem sequer é uma alma; na melhor das hipóteses é uma causa inteligível – menos uma pessoa que uma coisa”. O “deus” de Aristóteles é um Acto do Pensamento auto-pensante”, que “pensa eternamente em si mesmo, mas nunca em nós”. “Talvez devêssemos amar o deus de Aristóteles”, nota Gilson, com ironia, “mas qual seria a utilidade, uma vez que este Deus não nos ama de volta?”
“O homem conhece-se a si mesmo, continua Gilson, e “uma vez que que se conhece, pode dizer ‘eu sou’”. A questão está em saber se o princípio mais alto de Platão ou de Aristóteles pode dizer o mesmo. Terá consciência de si, de tal forma que possa dizer “Eu sou”? E terá consciência de si ao ponto de poder agir de forma livre, e preocupar-se com os outros? Isto permaneceu um desafio para o pensamento grego.
O Papa João Paulo escreveu na sua encíclica Fides et Ratio que uma das virtudes dos filósofos gregos era que “deixaram de contentar-se com os mitos antigos e procuraram dar fundamento racional à sua crença na divindade”. O resulto é que “As superstições acabaram por ser reconhecidas como tais, e a religião, pelo menos em parte, foi purificada pela análise racional”. Porém, faltava uma coisa. Faltava um Deus que pudesse dizer – e dizer em relação com outros – “Eu sou”.
O princípio divino de Platão, a fonte de todo o Ser e da Bondade, já não era como os deuses da mitologia grega, capaz de terrível imoralidade. Esta era já uma purificação. Mas aquilo que a divindade de Platão ganhou em pureza, perdeu em personalidade. Era um princípio, e não uma pessoa. Era uma coisa incapaz de ouvir orações ou de se preocupar com as vidas das pessoas em dificuldade.
O que o Cristianismo alcançou foi a unificação deste princípio fundamental de todo o ser e da bondade com a personalidade de um Deus que conhece e se preocupa com o bem-estar humano. Este é um Deus que pode dizer simultaneamente “Eu sou o Deus de Abraão, Isaac e Jacob” e “Eu sou aquele que sou. Diz-lhes que Eu sou me enviou”. (Êxodo 3,14)

Em ambas estas afirmações encontramos a relação “Eu-vós” de que fala o filósofo judeu Martin Buber, e não o “Eu-coisa”. E essa relação tem uma história e uma particularidade – “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob”. Não permanece distante e abstracto. Este é o Deus que que tem relações com pessoas em particular, e que intervém por elas no tempo e na história.
Contudo, não se trata o “Deus doméstico” dos israelitas, mas do Deus de toda a criação. Como Bento XVI afirmou sobre a autoria do relato da criação no Génesis, que terá sido escrito durante o Cativeiro da Babilónia:
Nesse momento, os profetas abrem uma nova página e ensinam a Israel que só então aparece o verdadeiro rosto de Deus e que ele não está limitado a um pedaço de terra. Nunca tinha estado. Tinha prometido este pedaço de terra a Abraão antes de ele se estabelecer ali, e tinha conseguido tirar o seu povo do Egipto. Podia fazer as duas coisas porque não era o Deus de um só lugar, mas tinha poder sobre o céu e a terra. E assim se compreendeu que este Deus de Israel não era um Deus como os outros deuses, mas que era o Deus de todas as terras e todos os povos. E podia fazê-lo, porque ele próprio tinha criado tudo o que havia no céu e na terra. Foi no exílio e na aparente derrota de Israel que se deu a abertura para a consciência do Deus que tem nas suas mãos todos os povos e toda a história, que tem tudo porque é o criador de tudo e a fonte de todo o poder.
Por outro lado, o Deus cristão não pode ser reduzido a categorias de ser, porque Deus é Ser. Assim, também, não se pode medir a bondade de Deus em comparação com a bondade de qualquer coisa criada, nem mesmo com a bondade de todo o universo, porque Deus é a Fonte de toda a Bondade.
E porém, perante a afirmação feita tantas vezes por teólogos modernos de que Deus é de tal forma transcendente que não pode ser compreendido, e por isso que as doutrinas sobre Ele devem ser relativizadas, o Papa responde: “Enquanto fonte de amor, Deus deseja dar-se a conhecer, e o conhecimento que o ser humano tem de Deus aperfeiçoa tudo o que a mente humana pode saber sobre o sentido da vida”.
Embora Deus seja transcendente e para além das categorias da razão humana, Ele quer ser conhecido, e Ele deu-Se a conhecer, de formas que os humanos podem compreendê-lo, na comunicação de si mesmo pela revelação.
Logo, bem entendido, não é necessário – aliás, não devemos – opor “o deus dos filósofos” – o deus do Ser e da Bondade – ao Deus de Abraão, Isaac e de Jacob.
Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 19 de Agosto de 2025)
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