
Este ano assinalamos os 1700 anos do Concílio de Niceia, o primeiro dos sete concílios ecuménicos, aceites tanto por católicos como por ortodoxos. O Concílio reuniu de Maio a Junho de 325. O Papa Francisco queria ter ido à Turquia (onde se encontra Niceia actualmente) para marcar esta efeméride, mas a sua prolongada doença e depois morte tornou a viagem impossível. É provável, contudo, que o Papa Leão XIV visite a Turquia neste outono, fazendo assim a sua primeira peregrinação internacional.
Os primeiros concílios foram dominados por polémicas cristológicas e trinitárias: como é que a as naturezas divina e humana de Jesus se encaixam, e qual a relação entre as três pessoas da Trindade. As pessoas modernas, pouco habituadas a pensar em termos de “naturezas” e “pessoas” (no sentido técnico-teológico), talvez pensem que esses concílios se ocupavam a discutir o sexo dos anjos. Contudo, as discussões culturais e políticas contemporâneas sobre a natureza do ser humano e a ideologia do género revelam que esta questão da “natureza/pessoa” se mantém bem viva, ainda que tenhamos esquecido a terminologia que ajuda a clarificar as coisas.
Do lado cristológico, os concílios têm regressado repetidamente à relação entre as naturezas divinas e humanas de Jesus. Alguém pode ser simultaneamente humano e divino? Se sim, como? Tratava-se de uma questão de proporcionalidade inversa: Quanto mais divino, menos humano? Ou uma igualdade teórica que, porém, impedia certas dimensões práticas de uma natureza (normalmente a humana), ou seja, será que a natureza humana de Jesus estava nalgum tipo de suspensão, ou congelada?
Eventualmente, por altura do Concílio de Calcedónia, em 451, a fé cristã ortodoxa afirmava que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem… inteira, activa, completa, simultânea e verdadeiramente divina e humana. Temo, porém, que para muitos católicos a verdade nua e crua da encarnação ainda não seja verdadeiramente apreciada.
É por isso que temos todos a ganhar em recordar um dos elementos centrais da antropologia teológica de São João Paulo II. Derivou-o do Concílio Vaticano II e colocou-o como pedra basilar da sua primeira encíclica, Redemptor hominis. E ao longo do seu pontificado nunca deixou de o repetir.
Esse elemento central é a verdade de que, se os seres humanos se querem compreender a si mesmos, o seu modelo é Jesus. Nas palavras de João Paulo II:
“Cristo, que é o novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu Amor, revela também plenamente o homem ao mesmo homem e descobre-lhe a sua vocação sublime” (Redemptor hominis, 8).
Volte a ler essa passagem com cuidado. Jesus Cristo “revela plenamente o homem ao mesmo homem”. João Paulo não escreveu que Jesus “revela plenamente Deus ao homem”. Jesus Cristo é a autorrevelação de Deus. Mas não é isso que João Paulo salienta. Jesus Cristo é a revelação do homem e da sua vocação.
Por outras palavras, se quer saber o que significa ser humano, existe um modelo, ou melhor, dois. Jesus Cristo e a Bem-aventurada Virgem Maria (porque, se levar a sério a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, devido às graças prevenientes conquistadas pelo seu Filho, também ela revela aquilo que um ser humano deve ser).

Como as escrituras nos recordam, Jesus Cristo é “como nós em tudo menos o pecado” (Hebreus 4,15). Esse “menos” pode parecer, à primeira vista, uma excepção muito significativa, dado que somos todos pecadores, mas obriga-nos a pensar.
Deus não criou o homem pecador. O pecado não fazia parte da ideia da Criação. Deus criou o homem bom, aliás, “muito bom” (Genesis 1,28). O que significa que não é Jesus, mas nós – todos nós – que deturpamos o que significa ser verdadeiramente humano como Deus fez os seres humanos. Somos nós, e não Cristo, que fogem à norma. Nós não somos aquilo que devemos ser. O pecado pode ser universal, mas é uma deformidade autoinfligida, e não congénita. A verdade é que em Jesus (e Maria) vemos aquilo que o homem – obediente ao Pai – deve ser.
“Mas eu não sou Jesus”, diz. E é verdade. Mas Jesus morreu por si. Através da Redenção Ele oferece-lhe todas as graças de que precisa, na vida em que agora se encontra, para viver como Deus quer, para ser “santo e agradável aos seus olhos” (Romanos 12,1)
A expressão máxima da redenção, como referido acima, foi a graça preveniente que tornou possível a Imaculada Conceição. Maria, livre do pecado pessoal e original a partir do momento da sua concepção. Dito isso, Deus, que deseja que “todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2-4), dá aos homens a graça, aquilo de que precisam para serem santos. Deus não pede ao homem o impossível.
Esta é base da teologia católica da Graça. O facto de raramente a ouvirmos explicada claramente, sobretudo a parte que diz que devemos fazer algo com o convite e os dons que Deus nos dá, é preocupante. Porque se é verdade que Deus vai a esse ponto, também é verdade que Ele não pode ir mais além. Nem Deus pode obrigar alguém a amá-lo. O Papa João Paulo II sublinhou isso quando invocou o conceito tomista de alteri incommunicabilis: ninguém pode querer por mim; a minha vontade é, e será sempre, apenas minha.
Visto desta perspectiva, torna-se clara a radicalidade do apelo de João Paulo: Jesus é nosso salvador e nosso modelo, o nosso exemplo de santidade. Os seres humanos não têm um “ideal”, um conceito, um mandamento ou uma abstracção daquilo que a humanidade deve ser. Têm um verdadeiro homem, uma pessoa que é simultaneamente homem e Deus e que procura uma relação pessoal com cada um de nós.
Um verdadeiro ser humano torna então possível a redefinição do que significa ser humano: superando todas as dualidades, somos lembrados de que o grau em que somos divinizados pela graça e o grau em que somos genuína e humanamente vivos estão diretamente relacionados.
Como disse Santo Irineu de Lyon (noutra das citações preferidas de João Paulo): gloria Dei vivens homo – “a glória de Deus é o homem vivo”.
John Grondelski (Ph.D., Fordham) foi reitor da Faculdade de Teologia da Seton Hall University, South Orange, New Jersey. As opiniões expressas neste texto são apenas suas.
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 23 de Julho de 2025)
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