
Uma das coisas mais estranhas da minha educação evangélica foi a catequese que recebi sobre criacionismo. Por causa de uma certa interpretação ultraliteral do Livro do Génesis, as igrejas evangélicas que a minha família frequentava pregavam periodicamente sobre os erros de Darwin, procurando munir os fiéis de argumentos sobre dinossauros, datação por carbono-14 e vários fenómenos que a teoria da evolução teria dificuldade em explicar. Todos nós, evangélicos fervorosos, ostensivamente treinados para falar com autoridade sobre matérias científicas.
Naturalmente, poucos de nós eram realmente capazes de o fazer. A ideia de que um evangélico que aprendeu ciência na igreja pudesse enfrentar um estudante de ciências duras ou um cientista profissional e dizer-lhe que, de facto, a Terra tinha 10 000 anos, é ridícula. Tal como os cristãos criticam os cépticos ateus por várias pressuposições filosóficas — como a de que os milagres não acontecem —, uma posição anti-evolucionista derivada de uma leitura peculiar do Génesis é igualmente infundada.
Quanto mais aprendia sobre a história contenciosa entre religião e ciência, mais me apercebia de que a batalha era, em grande medida, o resultado de uma confusão colossal, frequentemente perpetuada tanto por ateus como por fundamentalistas. A ciência ocupa-se de dados empíricos, daquilo que pode ser observado e testado no mundo natural; a religião ocupa-se de realidades metafísicas, algumas das quais podem ser logicamente deduzidas e articuladas, mas não podem ser testadas empiricamente. Afirmar que a selecção natural de alguma forma refuta a existência de Deus é equivalente a afirmar que, porque o comportamento humano é por vezes previsível, não existe livre-arbítrio.
Fiquei, por isso, agradecido ao descobrir que a Igreja Católica compreende a teoria da evolução não como um espantalho vilanesco, mas, tal como todos os outros aspectos do pensamento moderno, como algo a considerar à luz da verdade filosófica e de uma compreensão adequada da revelação divina. Darwin and Doctrine: The Compatibility of Evolution and Catholicism, do professor de biologia Daniel Keubler, insere-se plenamente nesta tradição católica equilibrada, analisando cuidadosamente as reivindicações filosóficas e metafísicas. Ele escreve: “Ao longo dos anos, passei de lutar para perceber como a evolução poderia encaixar no catolicismo para explorar de que modo uma compreensão evolutiva pode iluminar a nossa compreensão de como Deus se relaciona com a sua criação.”
A Igreja Católica não tem, na realidade, uma posição sobre a ciência da evolução, porque a sua missão é determinar verdades relacionadas com a revelação divina, e não arbitrar a validade de diversas teorias científicas. Quando a Igreja se pronunciou sobre ciência, fê-lo chamando a atenção para aquilo a que São João Paulo II chamou “[pseudo-científicas] teorias da evolução que, de acordo com as filosofias que as inspiram, consideram o espírito como emergindo das forças da matéria viva ou como um mero epifenómeno dessa matéria”.
Os católicos são, portanto, livres de sustentar uma variedade de posições relativamente à evolução, desde rejeitá-la completamente como incompatível com o Génesis, até aceitar praticamente toda a teoria evolutiva, com excepção daquilo que nega o ensinamento formal da Igreja, como a afirmação de que a Criação pode ser explicada exclusivamente através de processos naturais.

Keubler está convencido de que os dados disponíveis chegam para concluir que a vida na Terra evoluiu ao longo dos últimos 3,8 mil milhões de anos. No entanto, acredita também que Deus criou uma ordem natural maravilhosa, “um universo raro em que a evolução através de processos naturais é, de facto, possível”. Os católicos, argumenta ele, não têm de escolher entre a Igreja e a ciência evolutiva, correctamente entendida, sobretudo no que diz respeito aos elementos que têm um forte apoio probatório e àqueles que continuam a ser debatidos no seio da comunidade científica. Keubler é plenamente bem-sucedido em ambos os aspectos.
Começa por apresentar uma explicação de como a Igreja tem compreendido a Criação, bem como da confusão filosófica responsável pela percepção comum de que ciência e religião são incompatíveis. Explica a prevalência do cientismo, a crença de que a ciência é o único meio de adquirir conhecimento real, e as suas falhas fatais. Como argumenta o filósofo católico Ed Feser, “a afirmação de que o cientismo é verdadeiro não é, ela própria, uma afirmação científica, nem algo que possa ser estabelecido através de métodos científicos”.
A preocupação da Igreja com a evolução não decorre, assim, da ciência em si mesma, mas daqueles que a unem a uma visão materialista do mundo que exclui o divino. João Paulo II e Bento XVI ofereceram aos católicos um enquadramento para compreender a evolução e a Criação como duas formas complementares de considerar a realidade. Como ensina o Catecismo, quaisquer que sejam as nossas opiniões sobre a evolução, devemos acreditar que Deus é o Criador de um universo ordenado; que criou o homem como um ser simultaneamente físico e espiritual; e que a Criação nos orienta para Deus e reflecte o seu poder e sabedoria.
Keubler prossegue explicando a evolução numa linguagem que até os cientificamente iletrados acharão acessível. Explica como o código genético é provavelmente a melhor prova da descendência comum universal. Observa que a compreensão aristotélico-tomista da causalidade primária e secundária serve como uma forma útil de entender como mudanças aleatórias podem ocorrer no mundo natural (que, diga-se de passagem, é em muitos aspectos altamente ordenado), preservando simultaneamente a crença em Deus como Criador.
Escrevendo mais de 500 anos antes de Darwin, Tomas de Aquino, na sua Suma Teológica — considera a possibilidade de novas espécies poderem surgir ao longo do tempo! A apresentação de Keubler sobre a origem do homem, na qual correlaciona o que sabemos sobre a evolução das espécies de hominídeos com teorias sobre como e quando o homem adquiriu uma alma e depois caiu no pecado, é importante na medida em que preserva a doutrina do pecado original e é particularmente fascinante.
Estas especulações devem assentar sobre uma saudável humildade intelectual, permitindo suspender o juízo sobre teorias do desenvolvimento humano — ou de qualquer outro aspecto da evolução, aliás — à medida que surgem novas provas e teorias.
São John Henry Newman, recentemente declarado Doutor da Igreja, foi contemporâneo de Charles Darwin e escreveu: “A teoria do Sr. Darwin não precisa, portanto, de ser ateísta, seja ela verdadeira ou não; pode simplesmente estar a sugerir uma ideia mais ampla da presciência e da perícia divinas.”
Também o excelente livro de Keubler nos ajuda a compreender como a ciência evolutiva não precisa de ser uma antagonista da fé religiosa, mas pode ser um meio de aprofundar o nosso assombro perante o génio criador de Deus ao longo de milhões de anos.
Casey Chalk é autor de The Obscurity of Scripture e The Persecuted. Escreve para a Crisis Magazine, The American Conservative, e New Oxford Review. É licenciado em história e dá aulas na Universidade de Virginia, tendo ainda um mestrado em teologia da Christendom College.
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 16 de Janeiro de 2026)
© 2026 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org
The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.